Lá fora a hera
parece crescer, as hostênsias têm folhas verdes brilhantes, e os limoeiros
estão prenhes de pontos amarelos que antevejo e quase sinto rugosos nas minhas
mãos ásperas. Quase e parecer. Incertezas e incógnitas. A casa está quieta,
janelas fechadas, a porta verde da garagem fechada por onde um dia vi entrar o
padre de paramentos e alguém me avisou 'olha, está alguém para bater a bota
naquela casa' tanta pompa só podia ser extrema-unção, e nós, indiferentes ao
calendário lá fora, só o mesmo senhor desde há dois milénios anos tinha morrido,
e desta vez morrera outra vez. Tira o primeiro e põe uma vírgula, ouço, a Ruiva
espreita pela janela, o perfume do chá espalha a sensação fictícia de calma.
Envia para o emai, ouço outra vez, ou esmai, sei lá eu destes acrónimos e da
vida, vou-te mandar, alguém diz, a hera brilha agora com o sol que vai
baixando. A casa continua quieta e ouço o suspiro de alguém que se esqueceu de
desligar o microfone. O Franciscano é antes do Riacrdino. Juntas pargrafos.
8388, falta o p, ‘pera aí. Isto fui eu que escrevi, alguém discorda e
discutem-se palavras no limiar do tempo. Fala-se de sentido de humor. A hera
perdeu o brilho e o aroma do chá diluiu-se neste fim de tarde do fim dos
tempos. Põe c e tira a vírgula. Falta um ponto final no primeiro parágafo. Prática
simulada, alguém acrescenta, posso continuar, perguntam. Podemos todos
continuar. O sol abriu entretanto, ressoa no cortinado alvo da esquerda, a casa
amarela continua quieta de janelas e portas verdes fechadas, os limoeiros
dançam ao ritmo do vento. Passa uma mulher magra deglutida na esquina da casa
quieta. O sol escondeu-se outra vez e a Julieta aparece na porta. Tenho os pés
frios. Dias assim agora.
2 Apr 2020
28 Mar 2020
Se calhar foi a Violeta que se
lembrou que estávamos no fim do período e que estava na altura de fazermos a
nossa habitual festa. A Libéria revirou os olhos porque é pespenica a roçar o
irritante, exige a sua razão sobre os demais, e revira ainda mais os olhos se a
contrariam. O Júlio por esta hora estava a colher afectos nos seios rotundos da
Bibiana e concordou quando lhe perguntei se estava carente, concordou também
com os olhos e espanou a brisa da primavera com a ponta do rabo de cavalo no
colo da Bibiana. O Gabriel disse que ia falar com a mãe para fazer um bolo, e a
Violeta achou por bem fazer uma lista de quem trazia o quê. Avisei que além do
bolo traria uma toalha, e os rapazes alistaram-se nas coca-colas e sumos.
Depois, a Catarina disse que ia trazer também uma torta de chocolate, e a
Mirtila que trazia uns biscoitos do supermercado porque a mãe não tinha tempo e
ela também não, que é um bocadinho aparentada da Libéria na pespeniquice, o
Ramiro caiu este ano na turma e ficará por decidir se é tímido ou outra coisa
qualquer, mas não se manifestou nem se alistou para sumos, coca-colas ou bolos,
não lhe interessam festas nem coisa nenhuma, e escondeu-se como um gato, atrás
da Bibiana, convencido da sua invisibilidade, e eu também nada disse, os gatos
sabem mais do que nós e ele sabe que se esconde dele próprio e do crush pela
Violeta. A Catarina sorriu por trás dos óculos e declarou feliz 'gosto tanto de
si, stora' e eu sorri com o coração e com tudo o que tinha mas depois havia só
e apenas rostos do lado de lá do ecrã sem bolos nem toalhas, o rabo de cavalo
do Júlio nunca mais foi visto, os seios rotundos da Bibiana também lhe sentem a
falta, até a Libéria ficou menos pespenica, e da Violeta há silêncio. Deste
lado houve uma tristeza desolada.
Chamam-lhe também solidão. Adeus, miúdos.
gavetas:
confinamento,
para lá dos portões
29 Feb 2020
Nem
Tenho tantos cansaços que não sei como os chamar, cansaços plurais e histriónicos, cansaços que percorrem em mim caminhos sinuosos, costas abaixo, como um fio de mel espesso. Estendo-os esticando as pernas com o crepitar da lareira em fundo, um copo de tinto meio vazio que se afasta na medida em que distendo este corpo feito de horas e dias e meses, de tempo, chuvas e estações, e de mim, de calor e maresia, da bruma das manhãs, ajeito em circunferência o cabelo de medusa e penso qualquer coisa 'mostra-me esses silêncios de que és feito' e palavras assim que aparecem soltas e em qualquer momento. Sabem os deuses os seus desígnios e porque sou visitada por elas. Entendesse eu de deuses e de desígnios, e tudo seriam preces e orações. São palavras apenas, estas. Alimento a voracidade da lareira, e tento nada pensar para que o sono me visite. Nem em cansaços nem em frases nem em palavras nem em homens nem em mulheres. Nem
Pausa
Sol, luz, céu azul. Uma manhã de sol apazigua quase tudo, as palavras que se encarrilam em frase como quase sempre fazem, e que depois podem desaparecer se não as escrever ou que ficarão, assim as possa registar. E desde ontem que as procuro nesta tentativa egoísta de expulsar a devastação de te saber morto, nessa morte final e definitiva que te foi acontecendo, nessa incapacidade de me veres como tão bem me conhecias. Senti-te um bocadinho morto nesse dia, os teus olhos não reconheciam os meus, já não éramos nada.
Foi ontem. E eu não sei ainda se o pior é a revolta, esses deuses e desígnios, esse destino ou universo, isso que fez com que o corpo te traísse, logo tu, bom homem de coração aberto, bom professor, excelente colega, ou a dor de te saber morto. Que raio de coisas acontecem nesta vida que te impediram de gozar a tão merecida e desejada pausa de alunos e colegas, escola. Podiam ter-te dado tudo isso, os deuses, pausa, descanso, tempo para ti, tempo para tudo. Pausa da vida jamais.
6 Feb 2020
És tu? O toque de veludo que me serpenteia o corpo, o véu sereno sobre mim, o abraço suave que não sei de onde vem, serás tu? És tu que chegas, meu amor inesperado? Vem mais perto, mais ainda, não fujas. Não ouço os mochos nos pinheiros, os cães já não ladram, nada há senão nós na noite terna, silêncios pungentes onde nos detemos quando tu, e só tu queres, e eu me estendo, alma e corpo, submissa e recolhida. Nada temas de quem tanto te deseja. Não me abandones, meu sono adorado.
#crónicasdosono
gavetas:
sono
16 Jan 2020
Estás longe. Se estender o braço não te sinto, se te procurar com a mão nada encontro, se esticar o corpo ondulado como serpente, sinto o corpo, o meu, a deslizar na suavidade e no silêncio da noite que se pôs, a lareira crepita, as gatas dormem, de ti não há rasto. Sacudo as migalhas dos dias na toalha da semana, solto os cachos de medusa, virás assim, na languidez do corpo abandonado? Se me souberes tranquila, ser-te-à mais fácil? Se me ouvisses a respiração sincopada, meu eterno amor fugidio, talvez assim viesses. A mulher subitamente doce e submissa que te procura e te precisa, quero-te tanto, meu amor, preciso-te tudo. Sem ti não há luz nem sol. Sem ti os dias cinzentos são só cinzentos e as auréolas inferiores dos meus olhos o traço inequívoco da tua ausência. Trago-a marcada no corpo, no rosto que despenca, no caminhar arrastado, esta tez de vela cândida. Preciso-te, nem sempre te quero, mas preciso-te como os poentes de outono. E agora, daqui a pouco talvez, podias aproximar-te como os gatos espreitam o dia e cheiram a noite. Devagar, meu amor, devagar. Espero-te, meu sono vadio.
#crónicasdosono
#crónicasdosono
gavetas:
sono
11 Jan 2020
Cheirar maçãs, cheirar pêssegos, cheirar pão, cheirar vinho, cheirar a lenha a arder, cheirar a chuva acabada de chover, cheirar as primeiras chuvas de outono, cheirar as chuvas de março, cheirar o trópico quando a porta do avião se abre e há noite e calor e clorofila, cheirar o Norte nas cidades, cheirar o verão e a primavera, cheirar os livros acabados de imprimir, cheirar o café acabado de fazer pela manhã, cheirar a nespereira em flor, o jasmim, a hortelã, a maresia, o salgadiço no corpo, o corpo, cheirar, cheirar tudo e usar o olfacto como a bússola dos dias, o norte e o sul de mim. Cheirar o sol no pêlo da gata 'cheiras a sol, meu amor lindo'. Cheirar a sol, cheirar a lua.
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