Foi isto depois de ter encontrado um sítio onde o teclado de computador não refletia qual bola de espelhos dos anos setenta, deus os tenha quase todos em descanso, abençoados Bee Gees que tanta alegria deram ao mundo, me tinha acomodado junto à janela e aguardado paciente os avisos do ecrã à minha frente Esta operação poderá demorar alguns minutos e Estamos a preparar tudo para ti. Depois de me mandar esperar fez-se luz, a essa hora tinha já desinfectado tudo num raio de um metro e encetei a tarefa dos mesmos dias da semana à mesma hora. E foi quando me levantei para arquivar insignificâncias que se rompeu o silêncio aparente de computadores a roncar, folhas a restolhar e furadores a furar com a entrada triunfal da ave agoirenta de fim de tarde. Que as vacinas assim e assado, vociferou, a de Oxford tinha provocado reações adversas, ah pois, e o pior de tudo, ia ele a dizer, quando senti uma ira miudinha vinda do fim do estômago qual olho do furacão, um rodopiar em crescendo com letras a formar exclamações profanas que ainda tive tempo de apanhar CALA-TE, CRL! o pior também era a nova estirpe do vírus, continuou, muito mas muito pior, mais contagiosa, mais perigosa e mais letal. O redemoinho que ainda silvava nas entranhas ameaçou outra vez com as profanidades contidas que ele nem por um momento pressentiu, ficará por saber se pela minha arte de esconder impropérios se por total inabilidade intuitiva do anunciador do fim do mundo. Não contente com a ausência de reacção, não se deve alimentar trolls, chatos inconvenientes e gaivotas, chamou-me em seu auxílio Olha, sabes como se faz xcgsgujojdv aqui no programa. Não, respondi, e ele disse Acho que descobri. Chega aqui. Podia ter alegado o Covid, covirus, covi, mas os deuses condenam-me às vezes a uma estranha obediência e fui. Ele disse Vês? É aqui, aproximando-se. E eu Ah, 'tá bem, a ver se a vontade de lhe gritar CHEGA-TE PARA LÁ, CRL! se me esfumava pelos ouvidos. Depois deu-me fome e fui comer uma maçã assada. Passava das 16.30 e o dia já ia longo. O cansaço também.
18 Dec 2020
15 Jul 2020
Código 635 150 minutos + 30 de tolerância
Tinha um relógio branco com
ponteiros cor de pôr-do-sol de outono e bracelete a condizer. Os braços magros
e beijados pelo sol sobressaíam do top branco e da máscara verde e laranja com
padrão de penas de pavão, o cabelo liso como se tivesse gotículas de chumbo a
obrigá-lo a sucumbir à gravidade. Depois havia dois rapazes de camisa aos
quadrados sobre as t-shirts brancas. Não há temperatura na adolescência. Há
estilo que dita umbigos ao léu em pleno inverno e camisas axadrezadas num dia
de canícula superlativa. E isto digo eu que já fui adolescente e usei camisas
de flanela e umbigo à mostra, o tempo é sempre relativo e nós também, se calhar
é tudo: este escrever, este sentir, os carros que passam lá fora, a brisa que
de repente ulula da porta. A rapariga dos ténis pretos inquietou-se agora,
abana as pernas nas calças de padrão azul e branco nervosamente, muda a posição
dos pés e ajeita a máscara que lhe oculta um rosto que se adivinha belo
enquanto eu de vestido de flamingos acho que sei alguma coisa do mundo além da
dor irritante do dedo mínimo do pé esquerdo que me traz agastada e irritada vai
para quatro dias já.
O rapaz lá ao fundo leva as mãos
à cabeça para que não lhe fujam fórmulas e equações e coordenadas ou o que era
aquilo, e depois acaricia a própria orelha, desconheço a razão mas não
precisamos da razão de tudo, às vezes pode servir a sensação, o erotismo de
pequenos gestos, ou grandes. Passam carros lá fora, e autocarros que não deixam
de ser carros, e os pássaros chilreiam nos pinheiros mansos que hão-de ter uma
placa a identificar-lhes a espécie, Pinus pinea, um rótulo como se põe aos
outro: cigano, estrangeiro, paneleiro, puta, preto, vaca, mas este é só o
inofensivo pinheiro Pinus pinea, o rótulo não o mata nem seca, os outros sim.
O rapaz de olhos amendoados areja
o nariz fora da máscara, enquanto o de calções e pernas peludas perde o olhar
no ar. Se calhar procura o conhecimento no éter. Como a rapariga da máscara com
penas de pavão, a miúda das calças inquietas, os rapazes das camisas aos
quadrados. Se o encontrarem atribuir-lhe-ão um rótulo como o do pinheiro Pinus
pinea e tudo se resume a estes 150 + 30m de tolerância. A rapariga dos olhos
luminosos estende o cabelo em circunferência e esconde-se da manhã de sol num
mês que talvez seja julho e quase sei que lá fora a esperará um namorado
imberbe que lhe assegurará a ilusão do amor eterno e lhe reclamará a posse até
ela descobrir que ninguém é de ninguém. Pode demorar.
O dedo do pé esquerdo continua a
doer, preciso de um café bem forte e não sei muito bem o sentido disto tudo.
São dez horas e trinta e seis minutos.