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18 Dec 2020

STFU

 Foi isto depois de ter encontrado um sítio onde o teclado de computador não refletia qual bola de espelhos dos anos setenta, deus os tenha quase todos em descanso, abençoados Bee Gees que tanta alegria deram ao mundo, me tinha acomodado junto à janela e aguardado paciente os avisos do ecrã à minha frente Esta operação poderá demorar alguns minutos e Estamos a preparar tudo para ti. Depois de me mandar esperar fez-se luz, a essa hora tinha já desinfectado tudo num raio de um metro e encetei a tarefa dos mesmos dias da semana à mesma hora. E foi quando me levantei para arquivar insignificâncias que se rompeu o silêncio aparente de computadores a roncar, folhas a restolhar e furadores a furar com a entrada triunfal da ave agoirenta de fim de tarde. Que as vacinas assim e assado, vociferou, a de Oxford tinha provocado reações adversas, ah pois, e o pior de tudo, ia ele a dizer, quando senti uma ira miudinha vinda do fim do estômago qual olho do furacão, um rodopiar em crescendo com letras a formar exclamações profanas que ainda tive tempo de apanhar CALA-TE, CRL! o pior também era a nova estirpe do vírus, continuou, muito mas muito pior, mais contagiosa, mais perigosa e mais letal. O redemoinho que ainda silvava nas entranhas ameaçou outra vez com as profanidades contidas que ele nem por um momento pressentiu, ficará por saber se pela minha arte de esconder impropérios se por total inabilidade intuitiva do anunciador do fim do mundo. Não contente com a ausência de reacção, não se deve alimentar trolls, chatos inconvenientes e gaivotas, chamou-me em seu auxílio Olha, sabes como se faz xcgsgujojdv aqui no programa. Não, respondi, e ele disse Acho que descobri. Chega aqui. Podia ter alegado o Covid, covirus, covi, mas os deuses condenam-me às vezes a uma estranha obediência e fui. Ele disse Vês? É aqui, aproximando-se. E eu Ah, 'tá bem, a ver se a vontade de lhe gritar CHEGA-TE PARA LÁ, CRL! se me esfumava pelos ouvidos. Depois deu-me fome e fui comer uma maçã assada. Passava das 16.30 e o dia já ia longo. O cansaço também.

15 Jul 2020

Código 635 150 minutos + 30 de tolerância

Tinha um relógio branco com ponteiros cor de pôr-do-sol de outono e bracelete a condizer. Os braços magros e beijados pelo sol sobressaíam do top branco e da máscara verde e laranja com padrão de penas de pavão, o cabelo liso como se tivesse gotículas de chumbo a obrigá-lo a sucumbir à gravidade. Depois havia dois rapazes de camisa aos quadrados sobre as t-shirts brancas. Não há temperatura na adolescência. Há estilo que dita umbigos ao léu em pleno inverno e camisas axadrezadas num dia de canícula superlativa. E isto digo eu que já fui adolescente e usei camisas de flanela e umbigo à mostra, o tempo é sempre relativo e nós também, se calhar é tudo: este escrever, este sentir, os carros que passam lá fora, a brisa que de repente ulula da porta. A rapariga dos ténis pretos inquietou-se agora, abana as pernas nas calças de padrão azul e branco nervosamente, muda a posição dos pés e ajeita a máscara que lhe oculta um rosto que se adivinha belo enquanto eu de vestido de flamingos acho que sei alguma coisa do mundo além da dor irritante do dedo mínimo do pé esquerdo que me traz agastada e irritada vai para quatro dias já.
O rapaz lá ao fundo leva as mãos à cabeça para que não lhe fujam fórmulas e equações e coordenadas ou o que era aquilo, e depois acaricia a própria orelha, desconheço a razão mas não precisamos da razão de tudo, às vezes pode servir a sensação, o erotismo de pequenos gestos, ou grandes. Passam carros lá fora, e autocarros que não deixam de ser carros, e os pássaros chilreiam nos pinheiros mansos que hão-de ter uma placa a identificar-lhes a espécie, Pinus pinea, um rótulo como se põe aos outro: cigano, estrangeiro, paneleiro, puta, preto, vaca, mas este é só o inofensivo pinheiro Pinus pinea, o rótulo não o mata nem seca, os outros sim.
O rapaz de olhos amendoados areja o nariz fora da máscara, enquanto o de calções e pernas peludas perde o olhar no ar. Se calhar procura o conhecimento no éter. Como a rapariga da máscara com penas de pavão, a miúda das calças inquietas, os rapazes das camisas aos quadrados. Se o encontrarem atribuir-lhe-ão um rótulo como o do pinheiro Pinus pinea e tudo se resume a estes 150 + 30m de tolerância. A rapariga dos olhos luminosos estende o cabelo em circunferência e esconde-se da manhã de sol num mês que talvez seja julho e quase sei que lá fora a esperará um namorado imberbe que lhe assegurará a ilusão do amor eterno e lhe reclamará a posse até ela descobrir que ninguém é de ninguém. Pode demorar.
O dedo do pé esquerdo continua a doer, preciso de um café bem forte e não sei muito bem o sentido disto tudo. São dez horas e trinta e seis minutos.


26 Jun 2020

Flamingos

Acordo ainda sem o despertador tocar, abro a janela e a portada e cheiro a manhã, o azevinho tem gotas de orvalho e há pássaros felizes, se calhar são rouxinóis ou cotovias, que sei eu de pássaros e de tudo neste quase verão e nisto, que nome terá isto? O último dia de aulas chegou e apenas e só por uma questão de autodefesa e sanidade mental tenho uma leveza e um alívio em mim que decido pôr o vestido de flamingos. Deslizará sobre o meu corpo mais tarde. E saltos. Preciso de umas sandálias altas, perfume e quase podia pôr um anel. Não ainda. Quase esqueço que não levei a Luzinha ao Hard Rock, que não fomos à Quinta do Mocho, nem ao MAAT nem ao Museu Berardo, nem a Dublin, e que tudo se transformou em quadrículas com nome de gente. Que não posso corresponder à Catarina 'tenho tantas saudades suas e dos seus abracinhos'. Que caso a Marina precise de mim para chorar não estarei lá e chorar sozinho é cruel e frio em qualquer idade. Que lhes falhei um bocadinho e lhes faltei. O Joel também nunca mais descansou o rabo de cavalo nos seios rotundos da Belmira e nunca mais ninguém reclamou das rãs e de um pouco de tudo e de nada. O despertador toca. Este podia ser um dia bonito. Vou vestir o vestido de flamingos.

19 May 2020

em linha recta

Eram quatro e estavam sentados em linha recta, da janela até à porta. Não se mexeram e estiveram com a paciência dos conformados, a deixar o tempo denso a escorrer horas abaixo, sem entusiasmo nem alegria. Ali estavam desde as dez da manhã, não há intervalos nem pausas. Não foi bom ver os meus alunos. Imóveis e de máscara, poupem-me ao lugar-comum de que os olhos são o espelho da alma e que assim se realçam os olhos, aceitámos o infortúnio de regressar a um local onde outrora houve vida. Depois perguntei como tinha sido o primeiro dia e responderam-me 'sem vontade de voltar para o segundo'. A Mara não mexeu no telemóvel, o Ricardo tão longe e recolhido naquele objecto abjecto que mal o senti, a Lina ficou quieta, depois de comer um snack de um tupperware e recolocar a máscara, e a Marta esteve hirta e atenta. Lá fora os nenúfares estavam proscritos com uma fita delimitadora, o caminho ladeado por baias, que ninguém ouse pôr o pé além. Saíram à hora e eu fiquei a pensar que aquilo agradaria certamente a muitos: alunos perfilados, caminho indicado, actividades mortas, a felicidade de ninguém roubar aulas a ninguém, toda a gente sabe que tudo o resto é ruído e só as aulas trazem a luz ao mundo, e de não me atormentarem o sono com alíneas e directrizes estúpidas. Entrar ordeiramente pelo caminho prescrito, despejar 'matéria' e sair. O céu para uns. O inferno para outros. Pobre escola, o que te estão a fazer.

14 May 2020

E@D

Acabei há pouco de dar a última aula online à minha turma de Alemão. Dos onze alunos não há um único que vá às aulas presenciais a começar na próxima segunda-feira, o que quer dizer duas coisas, ou mais, mas fiquemo-nos por aqui: como com o regime de aulas presenciais acaba o EaD, estes alunos deixam de ter aulas, sem mais, que ninguém se convença que mandar tarefas para trabalho individual é o mesmo do que estar com eles e trabalharmos em conjunto, se não fosse por mais, saber se estão bem e saber deles já era o suficiente; irei à escola três vezes por semana e esperarei obediente dentro da sala de aula por alunos que não vêm. Se isto não é um contra-senso não sei o que é, mas sei bem o nó na garganta e a sensação de os ter abandonado ao seu destino. É isto a escola?

30 Apr 2020

it's all sad goodbyes


O Ramiro chegou atrasado. Rimos todos muito porque o Ramiro chegava sempre atrasado e agora também, e houve quem lhe tivesse perguntado se o autocarro tinha chegado tarde. Que parvoíce. Como quando lhes disse que me tinha perfumado e a Catarina reclamou, ó stora, mas nós não conseguimos cheirar! Não, Catarina, claro que não. O Vitório não conseguia entrar porque a língua da app era árabe e ele não entendia, e reclamou a aula toda até a Luzinha o ter ajudado. O Rogério deixou crescer o bigode, o Jaime rapou o cabelo, o Manuel deixou o cão na cadeira quando se ausentou por segundos, e continuou sendo ele, como o atraso do Ramiro, a constatação da Catarina, e a desolação de dias prolongados de nós e só nós. A Mara mostra sempre o sorriso doce, a Matilde é sempre a primeira a chegar como a Mara, e ao contrário do Ramiro. Olho para a relva que brilha do lado de lá da porta, enquanto a Marinela e a Francisca partilham a sua música preferida, o éter se rende à voz rouca de James Brown, e as 26 quadrículas se calam, depois de alguém gritar mute the mic! Também se partilhou Bob Marley, George Michael e Whitney Houston, do outro lado disseram pelo chat que estavam a dançar, mas agora havia ruído de crianças. Falámos de filmes, a Eunice disse que os ia ver e eu adverti para a linguagem e as cenas fortes e a Carmina assentiu, sim, stora, nós sabemos, mais faladora do que o atraso do Ramiro e a observação da Catarina, sendo mais ela do que antes fora. Ficámos todos muito felizes com filmes, música e mundo, e animaram-se bastante quando disse que para a próxima aula faríamos um kahoot. Quase parecia tudo normal. Vá, miúdos, vão saindo que eu sou a última, capitã do bote que navego pelas estrelas da intuição, o Norte e o Sul de mim, a maresia que me guia. Vá, miúdos, eu sou a última. Adeus, stora. Lá fora está sol e eu tenho uma vontade estúpida de chorar. Adeus, miúdos.

28 Mar 2020


Se calhar foi a Violeta que se lembrou que estávamos no fim do período e que estava na altura de fazermos a nossa habitual festa. A Libéria revirou os olhos porque é pespenica a roçar o irritante, exige a sua razão sobre os demais, e revira ainda mais os olhos se a contrariam. O Júlio por esta hora estava a colher afectos nos seios rotundos da Bibiana e concordou quando lhe perguntei se estava carente, concordou também com os olhos e espanou a brisa da primavera com a ponta do rabo de cavalo no colo da Bibiana. O Gabriel disse que ia falar com a mãe para fazer um bolo, e a Violeta achou por bem fazer uma lista de quem trazia o quê. Avisei que além do bolo traria uma toalha, e os rapazes alistaram-se nas coca-colas e sumos. Depois, a Catarina disse que ia trazer também uma torta de chocolate, e a Mirtila que trazia uns biscoitos do supermercado porque a mãe não tinha tempo e ela também não, que é um bocadinho aparentada da Libéria na pespeniquice, o Ramiro caiu este ano na turma e ficará por decidir se é tímido ou outra coisa qualquer, mas não se manifestou nem se alistou para sumos, coca-colas ou bolos, não lhe interessam festas nem coisa nenhuma, e escondeu-se como um gato, atrás da Bibiana, convencido da sua invisibilidade, e eu também nada disse, os gatos sabem mais do que nós e ele sabe que se esconde dele próprio e do crush pela Violeta. A Catarina sorriu por trás dos óculos e declarou feliz 'gosto tanto de si, stora' e eu sorri com o coração e com tudo o que tinha mas depois havia só e apenas rostos do lado de lá do ecrã sem bolos nem toalhas, o rabo de cavalo do Júlio nunca mais foi visto, os seios rotundos da Bibiana também lhe sentem a falta, até a Libéria ficou menos pespenica, e da Violeta há silêncio. Deste lado houve uma tristeza desolada.  Chamam-lhe também solidão. Adeus, miúdos.

11 Dec 2019

Foi naquela altura, no momento exacto antes da Natércia perguntar 'deutschland é um país?' que vieste sorrateiro. Senti-te e ainda te enxotei. Que tempo é este em que me apareces, logo agora que o Firmino, o Quitério, a Natércia, o Libório e o Francelino tinham perguntado todos ao mesmo tempo e depois cada um a seu tempo se os números eram para escrever por extenso, e a Vitalina exausta ter exclamado 'a stora já respondeu isso umas cinco vezes'? Depois o Antonino mostrou-se concentrado, exibiu o teste e proclamou 'ó, fiz tudo! Tudo. Só não sei escrever os números...' A Vitalina revirou os olhos e repetiu 'a setora já disse cinco vezes que não era para escrever'. O Firmino mostrou-se surpreendido e questionou o Antonino 'estudaste?' 'Estudei. Na aula de Economia. E rendeu' esclareceu ufano e sorridente. A Economia havia de ter alguma utilidade, eu sabia. Por esta altura já te sentia mais longe, havia demasiado à minha frente para te poder dar atenção, até porque o Ricardino lutava com o diálogo, não sabia dizer 'e tu?' e exclamou 'xi, se eu tivesse este diálogo com a gaja' e riu-se, rimo-nos todos, até a compostura de uma professora sofre abalos, e sofre de vez em quando como daquela vez em que perante a a assertividade em cumprir uma tarefa o Rogério proclamou 'julgas quisto é o quê? Isto é uma monarquia!' e me investiram rainha nas artes de gerir uma sala de aula ou de ensinar alemão. Posteriormente havia de ser investida imperadora, dizem eles que é maior que rainha, e surgindo do nada até sugeriram que aquilo afinal era uma ditadura. Por esta hora desististe de mim, talvez por piedade, ou pela minha rejeição inequívoca, ninguém merece tantos desafios a um fim de tarde, meu sono castigador. É uma virtude saber quando estamos a mais. Tu estavas.

25 Nov 2019

Dia um a três semanas do fim


Primeira aula do dia e da semana, burburinho e agitação. Dou voz de comando, duas ou três advertências inequívocas. A agitação acalma-se não sem antes haver reclamações quanto à minha agora proverbial 'directness'. Depois relembro 'hoje é o dia Internacional da eliminação da violência contra as mulheres' reagem 'a sério?' Sim. Segue-se risada e conversa inconsequente, a ligeireza de que a violência é só e apenas dar na cara de alguém. Levanto a voz irritada e digo-lhes que tenho a certeza absoluta de que todas as mulheres presentes já tinham sido vítimas de violência e dei exemplos inspirados num texto que postei no instagram logo pela  fresca. Abateu-se um silêncio cúmplice, nem um remoque ou um reparo, um manto espesso que nos imobilizou por instantes e quando lhes disse que o silêncio era bastante eloquente,  reclamaram que eu hoje estava agressiva, por outras palavras que não estas. Hoje, como sempre que abordo este assunto, fiquei com a clara certeza de que vejo apenas a ponta do  iceberg quando os tenho à minha frente, e isto assusta-me. Tanto trabalho rio abaixo  e tão pouco tempo. Levantada a invernia, fomos todos felizes outra vez e quase me esqueci da acusação da adorável Genoveva no início da aula 'de VERDE, stora! Nem parece seu!' Não parece mas também não era verde. A negação é uma coisa extraordinária

15 Oct 2019

Os bois pelos nomes


Corria o ano da  graça de dois mil e dezanove, e ditava o acaso, destino ou universo, prosaicamente apenas a minha profissão, que me encontrasse em Frankfurt, com cinco adolescentes a meu cargo e na companhia de um colega. Chovia a chuva miudinha que dizem ser dos tolos e por essa mesma razão albergava sob o meu chapéu comprado na estação de comboios o mais alto dos adolescentes, tão  desbragado quanto genuíno, com quem soltámos risadas igualmente genuínas e espontâneas. A vida de professor tem muitas risadas e alguns disparates, e somos todos felizes assim.
Caminhávamos lado a lado na ponte sobre o Main, almadiçoando a chuva os dois, observando los alemães no seu habitat, e os turistas a serem turistas, quando os meus olhos pararam sobre o stencil na parede mesmo em frente. Raio de sentido de oportunidade. Quem, mas quem é que pôs aquilo ali naquele preciso momento? Aquele manto mais parecia sagrado, o raio da coroa para baralhar isto tudo, e podia até ser uma nossa senhora, mas como neste corpo mora pecado, o que via à minha frente era uma vulva, coroada mas uma vulva, uma vulva rainha, caramba, uma mulher conhece-se. O ser a meu lado continuava na sua vida de adolescente, vendo isto e aquilo, reclamando da chuva, e grato pelo passeio extra, por esta altura já tinha tomado o meu guarda-chuva azul escuro e de gatinhos de assalto, enquanto eu rezava  à santa da coroa para que tudo passasse rápido, bastava dar uma volta e a vida retomaria a sua ordem natural, talvez do  alto do seu metro e noventa a santa passasse despercebida ou passasse mesmo por santa, quanta ingenuidade neste corpinho de cinco décadas, mas tal não aconteceu, sorte não é comigo. OLHA, AQUILO É UMA VAGINA! reclamou bem alto. Não era. Estas inexatidões em relação ao #sexo feminino é que me tiram do sério. Vulva, rapaz, era uma vulva.

8 Jul 2019

Ermos


Não vos cansa a negatividade, a visão do mundo e dos outros como um lugar de trevas e ressentimento, um sítio ermo onde todos os outros estão errados e nós, os eleitos e iluminados, temos razão? O Mariano não cumpriu. O Grancelino até nem era mau de todo mas também não cumpriu porque chegou atrasado, esbardalhou-se nas gorduras que lhe albergam a infelicidade e isso quase lhe foi fatal, isso e ter visto a melhor amiga morrer aos 11 anos, mas isso e outros issos interessam pouco ao lado de coisas inomináveis que só respondem por siglas, nem sequer acrónimos que eu gosto de acrónimos. A Dicotomina, coitada, esforçou-se bastante mas é limitada e é melhor escrever l i m i t a d a, ao que reclamei do alto dos meus cabelos eriçados, 'não, não podem escrever isso, digam de outra maneira', os nomes das coisas podem ser muitos, a realidade soará menos dura se lhe arredondarmos os epítetos e às vezes precisamos, a Dicotomina merece, e foi isto a sequência lógica de uma série de considerações sobre a vida de merda da Dicotomina, aceitemos agora sem limitações que há vidas de merda, e também sem arredondar palavras, talvez as arestas do M e do R se espetem nas almas dos presentes. Não espetaram. Já o Timóteo é um bardina, queria passar de ano, mais coisa menos coisa, assim, sem mais nem menos, ou quase. Afirmei, pedindo para entrar na conversa que talvez fosse melhor dar-lhe a oportunidade, decidiria por si e mostraria o seu valor, mas não, ainda senti um olhar certeiro que só foi desviado porque a rodela prateada do meu colar se interpôs no caminho e me salvou a indignação certeira ao peito, lá onde me crescem e palpitam coisas sentidas, e agora estaria erma de palavras também eu.
E depois, lá para o quase fim, disse 'olhem, ontem fiz uma tarte tatin de alperces d e l i c i o s a!' Ao meu lado senti a energia doce da aprovação e comecei a evadir-me daquele sítio ermo para onde há tartes tatin de alperces e um raio de sol que ilumina os lugares ermos para que deixem de o ser.
Não vos cansa tudo isto?

20 Apr 2019

#estudante


Eram isto 8.30. São sempre 8.30 quando a vida de professora começa mas não se sabe exactamente a que horas acaba. A Claudina tinha muito sono e declarou entre o longo cabelo negro derramado sobre a carteira e dois bocejos que tinha dormido mal. Diz que são as notas, o teste de Física e Química que lhe tinha corrido mal e quando afirmei que era apenas um teste, a Claudina repreendeu-me com o olhar e atirou-me sem perdão que não era 'só' um teste. O Quitério chegou mais uma vez tarde e, quando o questionei, reclamou que teve de ir levar o irmão ao infantário. A esta hora, a Ricardina já estava agarrada ao telemóvel, e quando a repreendi, justificou era a mãe que lhe estava a mandar uma mensagem. As mães mandam muitas mensagens. Lá pelas 8.45 quando ia começar a aula, chegou o Firmino. Vinha com as sobrancelhas em acento grave e agudo e nem pediu desculpa pelo atraso. Quando questionado, atirou que tinha ido dormir a casa da mãe e que o padrasto se atrasou, que não tinha culpa. E não tinha.Também estava aborrecido com o namorado e sei isto porque se foi sentar do outro lado da sala com as sobrancelhas em acentos e arremessou a mochila com o desprezo com que arremessamos a vida quando nos trata mal. A vida estava a tratá-lo mal. A Ricardina começou entretanto em prantos e pediu para sair. A ansiedade tinha atacado outra vez, é animal que a corrói como bicho carpinteiro devora madeira, e pedi à Germana para a acompanhar. Lá pelas nove quando lhes perguntei se sabiam o que tinha acontecido ontem, não, ninguém sabia, fosse o que fosse que tivesse acontecido  ontem, quando lhes perguntei se sabiam quem era Andy Warhol diz que não, não tinham ainda chegado a essa página do manual, mas  quando lhes perguntei se havíamos de dividir por todos a visita de estudo do Marcelino que não podia pagar disseram todos que sim, 'claro que sim, stora!', quando lhes disse que não se resolviam assuntos ao estalo, nem divergências nem discordâncias, olharam-me em silêncios cúmplices e eu anoiteci um bocadinho. Depois o Marcelo contou que o pai só não tinha morrido naquele dia porque ele se tinha posto entre ele e a mãe, o Danilo confessou que tinha visto o melhor amigo morrer aos dez anos, a Libéria estava numa instituição por vontade própria e andava chateada porque a tinham posto de castigo, o pai da Quitéria tinha-lhe dado uma tareia quando descobriu que ela era namorada da Capitolina e  a Marcela pediu desculpa pelo cansaço que a obrigava a cochilar na ombreira da janela quando víamos um filme mas estava a trabalhar no supermercado, depois das aulas, para ajudar a mãe. No fim da aula  a Joanina chegou-se a mim e declarou com um abraço 'para o ano vou ter muitas saudades suas'. Tocou entretanto. Todos arrumaram pais, mães,  mágoas, notas, guardaram tristezas, ansiedades e padrastos na mochila e saíram como se fossem felizes. É isto a vida de #estudante. É esta a minha vida entre estudantes.

11 Apr 2019

E nada mais havendo a tratar


Deu-se início à reunião com todos os professores presentes. No primeiro ponto da ordem de trabalhos, o Quitério não tem hábitos de trabalho e está muitas vezes distraído. Se calhar tem TDA. A Francinela também está muitas vezes distraída e sonhadora, às vezes reclama com a professora se esta lhe chama a atenção, e mexe-se, deve ter TDAH. Aumentem-lhe ritalina e apliquem-lhe um PEI. O Tomásio não estudou nada, o melhor é mandá-lo para a sala de estudo ou arranjar-lhe um apoio, se não chegar, no terceiro período, aplica-se-lhe o apoio do apoio, para que se sinta bem apoiado. O Guilhermino faltou todo o segundo período porque tem fobia social e à escola, e à escola e social e a tudo, a professora de Inglês é de opinião que ela própria também tem fobias superlativas a momentos destes, o conselho de turma foi de opinião que o melhor é ela calar-se e deixar-se de merdas ou terão de aplicar-lhe uma medida correctiva. Já ao Guilhermino é melhor dar a nota, perdão, classificação do primeiro período, assim como assim, é uma boa nota e os pais não reclamam: alínea xpto 'foi atribuída a classificação do primeiro período porque sim e mais-que-também, blá, blá, blá.' A Marinela ultrapassou o limite de faltas injustificadas às disciplinas de sei-lá-o-quê, pelo que vai cumprir medidas de recuperação de aprendizagens que  também é uma coisa assim sei-lá-o-quê .
No segundo ponto da ordem de trabalhos, a Capitolina não estuda nada, e os paizinhos querem resultados, a Marcela nem passa nada para o caderno e quer boas notas, o Patrocínio não tem pré-requisitos, o Francisco não tem hábitos regulares e sistemáticos de trabalho, o Miraculoso vem doutro país e não percebe nada, nem se sabe o que está cá a fazer e na escola muito menos. Se não sabe por que é que aparece e logo na escola?
No terceiro ponto da ordem de trabalhos, os alunos não têm hábitos de trabalho regulares e sistemáticos, o que se refle(c)te nas suas classificações. Os alunos devem rever a sua atitude face à escola/percurso escolar (riscar o que não interessa). Os alunos devem rever o seu percurso escolar. Os alunos revelam falta de empenho. Os alunos devem colmatar as suas dificuldades com trabalho sistemático. Os alunos devem todos já e em força mudar para línguas e humanidades. Os alunos nunca serão capazes de fazer Física e Química / Biologia / Matemática (riscar o que não interessa, ah não, espera, só isto é que interessa, não risca nada afinal)
No quarto ponto da ordem de trabalhos, a professora de português reclama que eles não fazem nada, nadinha, como hão-de fazer exame, a de Física e Química também, a de Geografia idem, a de Biologia pois que sim, a de História está muito preocupada, e a de Filosofia junta-se ao molho que só tem exame em anos bissextos ou alunos bissextos mas não interessa e estão todos felizes neste coro de lamúrias e indignações. Lá fora chove também, o que ajuda bastante.
No ponto quatro da ordem de trabalhos, blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá.
No ponto cinco e  seis, idem.
No ponto sete da ordem de trabalhos, o conselho de turma considerou o aproveitamento da turma uma caca e o comportamento um cocó.
Num ponto qualquer da ordem de trabalhos foram lançadas as classificações dos alunos e ratificadas pelo conselho de turma.
E, nada mais havendo a tratar, deu-se por encerrada a reunião, da qual se lavrou a presente ata.

4 Apr 2019

Machos, fêmeas e alheiras de bacalhau


O professor Vladimiro estava sentado na primeira mesa do lado esquerdo. O professor Carolino estava sentado na segunda mesa do lado esquerdo que partilhava com o professor Benedito, que por seu lado ombreava comigo sentada na terceira mesa do lado esquerdo. Como isto começou não sei muito bem mas terá sido quando o Carolino disse que gostava muito de comida tradicional portuguesa e que lhe sentia a falta quando estava fora de portas. Daí até às alheiras foi um salto. O Benedito é mestre nesta arte de bem fazer alheiras e partilhou com o Vladimiro, com o Carolino e comigo alguns segredos da preparação das mesmas. Seguidamente a conversa rumou às variações de alheiras. Por esta altura a Floribela já estava sentada na outra mesa, lugar que ocupou depois de trocar umas palavras de queixume vocal sobre a razão de se encontrar a Oeste, ou lá o que isto é. O Vladimiro comunicou que já tinha comido alheiras de cogumelos, imagine-se. O Benedito reclamou a tradição nas alheiras 'até já há de bacalhau' e 'o judeu que inventou as alheiras deve a estar voltas na cova'. Alguém proclamou 'deviam chamar-lhe outra coisa, mas alheiras não' . Eu concordei, concordámos todos e deliberámos unânimes nesta assembleia reunida impromptu 'chamem-lhe outra coisa!' A Floribela também concordou e quando nos recolhíamos das alheiras e passávamos para o pão-de-ló, desprendeu-se algo do íntimo da Floribela que a impeliu a afirmar 'é como um casal.' 'Para mim é macho e fêmea!' proclamou ufana enquanto assassinava impiedosa um pastel de massa tenra que nada disse em sua defesa e foi deglutido sofregamente. E não era de bacalhau. O que se passou a seguir ficou suspenso na estupefacção do Vladimiro, sentado na primeira mesa do lado esquerdo, do Carolino sentado na segunda mesa do lado esquerdo e do Benedito, que por seu lado ombreava comigo sentada na terceira mesa do lado esquerdo. Reclamei, nesta altura senti as pontas dos caracóis ruivos a chamuscar de furores, o Carolino diz que fiz uma entrada a pés juntos ' um casal é um casal, macho com macho, fêmea com fêmea, macho com fêmea. É igual'. A Floribela não se deu por achada e continuou a afirmar   a sua convicção de nem alheiras de bacalhau nem macho com macho nem fêmea com fêmea. Saiu arrastando consigo o manto rançoso do preconceito, que me apressei a pedir para limpar 'tragam a esfregona que isto não se aguenta' e 'abram as janelas que não se pode com o cheiro' antes que mais alguém se estatelasse na sua própria homofobia de alheiras de bacalhau e ficámos todos suspensos inquirindo como raio se passa de alheiras a machos e fêmeas e casais. Era eu, o Vladimiro, o Carolino e o Benedito.

25 Feb 2019

Sabre de luz


A Capitolina e o Eleutério reclamaram que o tempo dos pais é que era bom. O Eleutério argumentou que era tudo mais simples, tinha-se menos, diz ele, mas que os pais lhe narram tempos de felicidade e ligeireza, parece tão fácil diz o Eleutério em desespero e num inglês escorreito que parece tão fácil como o tempo mítico da infância dos seus pais.  O Eleutério desconhece a inevitabilidade de uma adolescência conturbada, porque os pais o pressionam, os professores o pressionam, a escola o pressiona, no fundo, há uma conspiração mundial, do universal reino da 'pressionação' que domina as galáxias e inferniza a vida de ser jovem em pleno ano da graça de 2019, o tal em que o Vaticano se lembrou que talvez fosse boa ideia dizer umas coisas sobre as batinas levantadas e crucifixos em riste. A Capitolina fixou o olhar em mim, e as restantes Capitolinas e Eleutérios, quando eu disse que ser adolescente 'antes' era um grande tédio. O Inácio ripostou que 'era um grande tédio mas que não havia pressão'. Passei então à estratégia hard core,  peguei no meu sabre de luz e expliquei-lhes que nesse tempo abençoado, antes do universal reino da pressão, as crianças se sentavam tanto mais à frente na sala de aula quanto mais prestigiados fossem os progenitores, contei-lhes que a Maria  seria sempre a Maria, não sairia da cepa torta se tivesse de contar com o estímulo da professora primária para se escapar ao triângulo mulher-a-dias - criada - dona-de-casa, caso assim o almejasse, e que sem saber muito bem porquê, podia levar reguadas ou estaladas, ou porque sim ou porque não, muito provavelmente porque era burra, e os burros só merecem um castigo: porrada. Importante era que a Maria levasse umas bem assentes naquele lombo, devia haver um crédito diário de bordoada a distribuir naquele tempo, e importante também é que o pai ou a mãe da Maria não iam à escola pedir contas à professora pelas reguadas, em reverente subserviência. Concluí dizendo que ainda trago na memória pedaços daquele tempo cinzento, mas guardei para um outro dia o dia em que a Almerinda levou porrada e chorou e misturou giz com lágrimas e eu de impotente e atónita guardei para sempre aquele momento, um misto de mágoa e culpabilização que ainda hoje me atormenta e revolta. Também não lhes disse que uma parte da professora que os ouvia se fez naquelas paredes austeras de crucifixos e rezas pela manhã e das lágrimas da Almerinda. Lá fora as rãs reivindicavam a primavera precoce e o aroma do zénite apaziguava a memória da Almerinda. Recolhi o sabre de luz.

17 Feb 2019

Dia de São Valentim


Vinham todos com sono. O Ramiro também vinha com sono mas isso não o impediu de proclamar alto e bom som em medida profilática contra perguntas indesejáveis 'setora, estamos todos solteiros!'. Alguém reclamou flores e chocolates. A professora declarou 'as flores murcham e os chocolates comem-se, esqueçam isso', rematando que ali e à mão de semear só tinha abraços. Encolheram os ombros e continuaram a reivindicar flores e chocolates, quem, mas quem é que oferece abraços se se podem ter 'coisas'? Não havia chocolates, muito menos flores, o melhor era reconciliarmo-nos todos com a triste realidade de só haver abraços e de só nos termos uns aos outros, noventa minutos de língua estrangeira pela frente, e começarmos a aula. A professora pensou como havia de remediar esta míngua de namorados, flores e chocolates, logo hoje, precisamente hoje, e declarou, após jorrar umas banalidades sobre o amor e o consumismo 'que disparate, meninos!' transformado em peluches e rosas vermelhas de cetim a cheirar a puta, a professora não disse puta, a professora não diz puta, que poderiam fazer um kahoot sobre o dia de São Valentim. O Ramiro concordou e aliou-se à Miquelina ao seu lado. A Daniela mudou-se para o lado da Luciana. A Capitolina e a Estrela, o único par da turma, entricheiraram-se atrás dos cabelos longos e esquálidos da Marcenda, como sempre, sabemos todos como o amor pode ser rotineiro. Por esta altura, o Vitorino já  tinha resurgido qual Fénix por trás do Ramiro, e o Eliseu declarara mais uma vez a sua irremediável solidão de fêmea. Faltava o código, um nick name, que caminho tão fácil para a felicidade afinal, e durante os minutos seguintes, as citações do amor, os filmes do amor, a ciência do amor e as canções do amor em forma de questionário fizeram esquecer a ausência de flores e chocolates, essa solidão que se infiltra em nós como a nuvem indelével de humidade em dias de invernia pegajosa. Houve risos e exclamações de espanto, súplicas para não parar, barulhinhos de satisfação, a Miquelina entoou com sentimento o refrão  de uma canção de amor requentada, e quando pelas dez horas soou o alarme já não se falava de chocolates e flores, nem sequer da sua ausência, ou de ausências sequer.  Parece fácil. O amor devia ser fácil assim.

29 Jan 2019

Quitério, Violeta, Viviano

O Quitério senta-se sempre num lugar da frente, traz consigo a prontidão das gentes do Norte ao falar, faz beicinho quando está aborrecido e detém-se em silêncios longos quando algo o chateia, A Violeta senta-se não muito longe do Quitério. É suave no trato, elegante na expressão, solta palavras sempre a preceito e sempre assertivas, condizentes com a figura magra e esguia de cabelos longos e gosto sóbrio. Quando o Quitério se deslocou ao quadro numa das vezes,  a Violeta, esperando o momento certo, disse, a meio tom 'Quitério, devias pedir desculpa ao professor do Sentido da Vida'. O Quitério justificou-se, reclamando que estava aborrecido, que o professor foi insistente e outras desculpas aparentemente infundadas porque a Caramelina do outro lado da carteira corroborou a opinião da Violeta 'também acho, Quitério.'
Hoje o Viviano pediu-me a opinião sobre uns ténis. O Quitério reclamou que não eram ténis, eram sapatilhas, eu reclamei que eram ténis, a Juzelina reclamou que o Viviano lhes pedia opinião para tudo, até para os boxers, e eu defendi o Viviano que entretanto me desfolhava ténis de várias cores e feitios no ecrã brilhante e que ganhavam ainda mais cor nos seus olhos. O Viviano não reclamou de nada. Quando afirmei que só usava ténis para o ginásio, o Quitério surpreendeu-se ' a setora vai ao ginásio? Vai ficar bicho!' A Violeta acorreu em sua salvação 'Quitério, não podes falar assim à setora'. O Quitério argumentou o de sempre e questionou-a 'então e o que é que eu digo?' Dizes, disse a maternal Violeta, que 'a setora vai ficar tonificada', tudo isto rematado com um sorriso. O Quitério obedeceu, tentando acomodar os eufemismos ao lado das verbalizações ásperas, uma empreitada para vários anos lectivos ao que parece. Mais tarde a Violeta voltaria a questionar 'Quitério, como é que se diz?' O Quitério respondeu no seu novo e recauchutado linguajar ' a setora vai ficar tonificada' e a  Violeta reafirmou a sua fé na conversão do Quitério. A aula começou e fomos todos felizes mais uma vez. Hoje até o Francelino se riu.