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26 Sept 2020

 Vou dormir, penso, dizem os entendidos que estes anúncios servem para autorregularmos o  comportamento, e assim faço, convenço-me de que vou dormir, pode ser que se me afastem inquietações e possa repousar o espírito como abandono os sapatos quando chego a casa.

Assim farei, largo-as ao despir-me e dispo-me delas, e do mundo. Amanhã posso fazer uma máquina de roupa de negritudes e inquietações, expressão tão tola como fazer febre, e deixá-las na centrifugação mais forte, com sorte encolhem para tamanhos insignificantes. Não ladram cães hoje. Não há vento nem vozes.Tanto silêncio que me aninharei nele, despojada de dias e inquietudes, farei como os gatos enrolada em mim mesma a dormir-me-ei numa ode aos pronomes reflexos.

7 Aug 2020

Intermitências do sono

Pudesse eu lembrar-me como te reencontrei e talvez soubesse de abraços longos e envolventes ou beijos furtivos que se tornaram longos e quentes como a brisa nocturna de verões cálidos. E presentes. Não sei quantos anos de ausência. Dez, quinze, sempre. O epitáfio que quase te escrevi, o anúncio aflito à tua procura, e as partilhas que hoje nada há além de likes e partilhas. Nao estavas nem eras. Fosse eu outra coisa que não eu, e pouco me interessaria porque voltaste. Se calhar, o jeito doce de te chamar, vem, meu amor, vem agora, a mulher convenientemente  submissa, astuta e matreira  para atrair o objecto desejado, ou o ímpeto de te sacudir nas horas impróprias, és feito de incógnitas e surpresas. Tantas que voltaste sem mais. E agora, neste mesmo momento em que arrumo o dia e solto o corpo estás perto e somos um até as palavras me faltarem e  restará o silêncio e nós. Fica comigo. Preciso-te, meu sono adorado. Tanto.

6 Feb 2020

És tu? O toque de veludo que me serpenteia o corpo, o véu sereno sobre mim, o abraço suave que não sei de onde vem, serás tu? És tu que chegas, meu amor inesperado? Vem mais perto, mais ainda, não fujas. Não ouço os mochos nos pinheiros, os cães já não ladram, nada há senão nós na noite terna, silêncios pungentes onde nos detemos quando tu, e só tu queres, e eu me estendo, alma e corpo, submissa e recolhida. Nada temas de quem tanto te deseja. Não me abandones, meu sono adorado.

#crónicasdosono

16 Jan 2020

Estás longe. Se estender o braço não te sinto, se te procurar com a mão nada encontro, se esticar o corpo ondulado como serpente, sinto o corpo, o meu, a deslizar na suavidade e no silêncio da noite que se pôs, a lareira crepita, as gatas dormem, de ti não há rasto. Sacudo as migalhas dos dias na toalha da semana, solto os cachos de medusa, virás assim, na languidez do corpo abandonado? Se me souberes tranquila, ser-te-à mais fácil? Se me ouvisses a respiração sincopada, meu eterno amor fugidio, talvez assim viesses. A mulher subitamente doce e submissa que te procura e te precisa, quero-te tanto, meu amor, preciso-te tudo. Sem ti não há luz nem sol. Sem ti os dias cinzentos são só cinzentos e as auréolas inferiores dos meus olhos o traço inequívoco da tua ausência. Trago-a marcada no corpo, no rosto que despenca, no caminhar arrastado, esta tez de vela cândida. Preciso-te, nem sempre te quero, mas preciso-te como os poentes de outono. E agora, daqui a pouco talvez, podias aproximar-te como os gatos espreitam o dia e cheiram a noite. Devagar, meu amor, devagar. Espero-te, meu sono vadio.

#crónicasdosono

11 Dec 2019

Foi naquela altura, no momento exacto antes da Natércia perguntar 'deutschland é um país?' que vieste sorrateiro. Senti-te e ainda te enxotei. Que tempo é este em que me apareces, logo agora que o Firmino, o Quitério, a Natércia, o Libório e o Francelino tinham perguntado todos ao mesmo tempo e depois cada um a seu tempo se os números eram para escrever por extenso, e a Vitalina exausta ter exclamado 'a stora já respondeu isso umas cinco vezes'? Depois o Antonino mostrou-se concentrado, exibiu o teste e proclamou 'ó, fiz tudo! Tudo. Só não sei escrever os números...' A Vitalina revirou os olhos e repetiu 'a setora já disse cinco vezes que não era para escrever'. O Firmino mostrou-se surpreendido e questionou o Antonino 'estudaste?' 'Estudei. Na aula de Economia. E rendeu' esclareceu ufano e sorridente. A Economia havia de ter alguma utilidade, eu sabia. Por esta altura já te sentia mais longe, havia demasiado à minha frente para te poder dar atenção, até porque o Ricardino lutava com o diálogo, não sabia dizer 'e tu?' e exclamou 'xi, se eu tivesse este diálogo com a gaja' e riu-se, rimo-nos todos, até a compostura de uma professora sofre abalos, e sofre de vez em quando como daquela vez em que perante a a assertividade em cumprir uma tarefa o Rogério proclamou 'julgas quisto é o quê? Isto é uma monarquia!' e me investiram rainha nas artes de gerir uma sala de aula ou de ensinar alemão. Posteriormente havia de ser investida imperadora, dizem eles que é maior que rainha, e surgindo do nada até sugeriram que aquilo afinal era uma ditadura. Por esta hora desististe de mim, talvez por piedade, ou pela minha rejeição inequívoca, ninguém merece tantos desafios a um fim de tarde, meu sono castigador. É uma virtude saber quando estamos a mais. Tu estavas.

17 Nov 2019

Crónicas do sono #10


Podes vir agora que a noite se aninhou no luar e lá fora não há se não quietude, não silêncio. Podes vir agora que estendi o corpo e lhe sacudi os afazeres dos dias, obrigações, preocupações, que me afastam tanto de ti, ausências prolongadas que me põem exausta e consumida de vida. Vem agora, meu amor, que o corpo se aninha na lassidão do calor. Larguei os cachos na almofada, respiro com a doçura dos amantes felizes. Se vieres agora, amar-te-ei intensa e feliz até que o sol te chame e te lance noutros braços do outro lado do mundo. Vem, meu insondável sono, meu amante castigador, preciso tanto de ti.

8 Nov 2019

Crónicas dos sono #9


Larga-me. Não te quero perto agora. Não me beijes o pescoço com esses teus lábios lúbricos. Não me enroles os caracóis nesse teu dedilhar sensual, essa onda quente que me baixa as defesas, e fico submissa e lânguida, sabes bem. Não posso agora. Logo, tu sabes, quando os mochos se alvoroçam, e a lua brilha no topo dos pinheiros, estarei pronta para ti, o corpo nu abandonado, sem artifícios, só eu. Vem logo, meu amor fugidio, serei tua, meu sono insondável. Não agora. Afasta-te.

24 Aug 2019

Crónicas do sono #8


Chega aqui. Mais perto. Deita-te a meu lado e sobe-me como a maré, acaricia-me como a brisa do estio que me entra agora pela janela enquanto me despojo do dia, da noite, de mim, um corpo que anoitece no crepúsculo de si. A noite que se pôs lá fora embalar-nos-á, seremos um até cantar a cotovia, e os raios de sol choverem fios dourados pela janela. Vem agora e serei tua, meu sono desejado, meu amante inquieto.


6 Aug 2019

Crónicas do sono #7


És tu outra vez, sorrateiro dos infernos. Mordiscaste-me os tornozelos enquanto me derrubava nuns afazeres, quase garantiria que me lambeste a panturrilha que trago nua neste estio arredio. Eu sei que eras tu. Não negues. Agora que espero um outro afazer e me abandono no sofá, fizeste-te convidado e impuseste-te. As mãos firmes na cintura que deixaste escorregar pela ânfora das minhas ancas quando me levantei resoluta. Sabes bem, esses humores de aparecer quando queres cansam-me, irritam-me e às vezes apetece-me deitar-te fora quando vou ao lixo, não mereces muito mais, ou levar-te comigo quando caminho junto ao mar e libertar-te lá do alto, em dias menos maus, que ficasses com as gaivotas. Chato impertinente. Se viesses à noitinha, na hora dos silêncios, podíamos ser tão felizes, amaciar-me-ia em ti, largaria sonhos e pesadelos e em uníssono inspiraríamos a noite e o luar, estrelas e constelações, que Vénus nos abençoasse e Júpiter nos protegesse. Não insistas agora. Vai -te embora, sono matreiro. Vai -te, fico com o silêncio, não contigo.

12 Jul 2019

Crónicas do sono #6


E aqui estamos outra vez. Eu deitada na minha posição preferida, barriga para o ar, o corpo com a displicência do estio, tranquilo e suave, quase indefeso, e chegas. Senti-te quando entrei em casa e me chamaste, a sedução a que não resisto, esse jeito de me fazeres tua a que obedeço indefesa. Deita-te, sussurraste, obedeci. Chega-te agora mais perto, meu eterno amante fugidio, meu sono castigador. Envolve-me nesse véu protector de onde não quero sair e seremos um. Vem. Hoje. Agora.

8 Jul 2019

Crónicas do sono #5


És tu outra vez, és tu que me percorres as costas como um fio de mel. Sinto-te, meu amor, a quereres tomar-me como tua, o teu halo tépido que envolve o meu corpo antes de me abandonar em ti e fazeres de mim o que queres, submissa e conformada nesta necessidade de ti. Tu sabes, vais e voltas quando queres, e quando te julguei meu outra vez, resolveste fugir-me para os braços de outros, o lugar que arrefece e os olhos que despertam na escuridão de mim. Mas agora que me queres, serei forte e irresoluta, procurarei bosques e mares que de ti me mantenham longe, procurarei mundos nos livros para que não te sucumba. Não te quero agora, sono caprichoso, minha tumultuosa metade. Volta logo, e serei tua outra vez. Agora não. 

17 Jun 2019

Crónicas do sono #4


Hoje foste tu que me chamaste. De mansinho como os gatos enroscaste-te no meu colo e foste subindo sorrateiro até te enrolares no pescoço. Ouço o teu sopro suave, a respiração no meu peito, o calor húmido do teu corpo tão perto, véu de seda que me envolve e me deixa vulnerável e abandonada. Fecha a porta, meu sono desejado, meu amante fugidio. Fecha o mundo lá fora. Serei tua.

23 May 2019

Crónicas do sono #3


Não agora. Não venhas agora enquanto o sol ainda vai alto e os raios de luz estridente me iluminam a alma e beijam o corpo. Não me beijes o pescoço, não me percorras as costas nesse teu indelével toque, o toque que depois de me arrepiar, me embalará nesse doce colo, livre e ligeiro como um manto de seda, onde repousarei inteira e abandonada. Larga-me, meu amor. Espera-me antes pela noite e seremos felizes outra vez, meu querido, meu eterno amante fugidio, meu sono temperamental.

#crónicasdosono

19 May 2019

Crónicas do sono #2


Meu amor, podes vir agora, na hora de todos os silêncios, agora que me despojo do dia, agora que me dispo até de mim e te espero lânguida na cama entre lençóis dos meus sonhos. Vem, meu amor desejado, minha eterna paixão fugidia. Vem até mim, abraça-me nesse teu colo que tanto desejo e embala-me até que a lua se esconda e o sol brilhe. Podes vir, espero-te e quero-te. Vem, meu querido e adorado sono.

#crónicasdosono

13 May 2019

Crónicas do sono #1


Vamos ver se nos entendemos. Apareces quando queres, vais-te embora se te apetece, e outras surges intermitente, raras vezes amando-me como eu preciso, e preciso tanto, e mereço. Neste momento, não te quero, nem te preciso, amasses-me tu com hora, na hora de todos os silêncios, quando me enrosco no luar como um gato e seríamos eternamente felizes, se não eternamente, pelo menos na fugacidade de umas horas até que o sol surgisse em fios luminosos pela janela. Largar-te-ia, meu amor fugidio, e aterraria nos teus braços quando a lua se faz luz outra vez. Não me queres e cutucas-me o pescoço em alturas inconvenientes, como agora. Não podias amar-me sempre, meu sono castigador?

#crónicasdosono