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7 Feb 2021

The hills are alive

 Se calhar não devia lembrar-me disto porque estou exausta e o cansaço traz no bolso estados depressivos que me atira como rede em mares abertos. Sei que foi a primeira vez que fui ao cinema e foi isto na altura em que os adultos tinham vida própria além dos filhos e a minha mãe e a minha avó decidiram que a cidade era grande e bela e se deitaram a calcorreá-la, e agora que falo nisto, vejo quanto de ambas sou e as saudades que tenho de uma cidade grande. O meu pai levou-me e quase garantia que foi no Éden, garanto que foi no Éden, que também já não é cinema, mas nada é do que era, e eu também já não sou a adolescente insegura a aturar quem me ocupou tempo a mais e de mais e também não sou a criança que naquele dia veria o filme que me ficou para sempre, já não tenho a mão do meu pai, nem sequer sou a mulher que já fui e a que estive hoje e que desaparecerá quando me entregar aos demónios noturnos. Foi isto no tempo antes de odiar musicais mas já não gostava de favas e ainda não tinha cabelo indomável mas era no tempo em que íamos ao Jerónimo Martins ali à Rua do Carmo à procura de carne seca e feijão preto.Tenho a certeza que foi no tempo dos verões na Figueira da Foz, se se pode chamar verão aos açoites enfurecidos da areia e água fria que eu nunca permitia subir acima do tornozelo, mas havia robertos e bolacha americana e o Né chorava muito quando o queriam meter no mar. Nessa altura ainda não tinha saudades da bolacha americana nem do Né, e tenho tantas, meu primo tonto. Também foi no tempo em que a prima Deolinda morava na Rua da Beneficência, o tio Luis na Morais Soares  e foi mais ao menos neste tempo que fiquei a odiar fardas verdes e que percebi que se calhar por causa das fardas verdes o Luís desertou para a Bélgica e a Dona Isaura chorou de tristeza e alegria quando o telefone tocou a dar boa nova em código na casa dos meus pais. Também foi nessa altura que apareceu o 'Fátima Desmascarada' lá em casa. Anos mais tarde fazia-se revolução mas antes eu fui ver o 'Música no Coração' ao Éden e não era Inverno, e era o Éden, tenho a certeza, com o meu pai. Eu, ele e o Capitão von Trapp fomos felizes décadas afora. Até hoje.

1 Oct 2020

Corar ao luar

 Podia ser aquela camisola preferida, o top cinzento de momentos de solidão aprazível, o vestido cor de abóbora que me disseram hoje ficar a condizer com a casa de banho da escola, ou as botas de camurça que levaste na correria do quotidiano para a cozinha e que salpicaste com o azeite virgem suave, nem sei de onde vêm estas expressões ridículas de virgindade patriarcal. Podes ser tu. A vida que te salpica de manchas para as quais não há solução, não são nódoas, são marcas. Tu não sabes. Ainda. E lavas. Lavas outra vez, esfregas com a raiva de dias amargos e se tomares atenção, repara bem, continuam lá, mais ou menos percetíveis, os outros não vêem. Estendes-te ao sol, deixas-te corar ao luar, com sorte apanhas orvalho e estarás hirto e gelado que nem bacalhau da Islândia ou da Noruega, tanto faz para ti, que tremendo disparate e que grata memória de infância. Não saiu a marca. Esfregas-te mais. Outra vez. Outra ainda. Vê lá se se notas alguma coisa. Não vejo nada, dizem-me, não se nota. Tu sabes que não se nota. Que notam os outros de ti? Lavas a vida inteira, esfregas, coras-te ao luar. Tu és o top cinzento, as botas de camurça, se calhar o vestido cor de abóbora. Desiste de esfregar. Esquece o corar ao luar. Não sai mais. Vê lá se notas alguma coisa. Não vejo nada, dizem-me. Eu sei.

9 Sept 2020

 Não sei muito bem se isto que tenho é sono ou o dia a escorrer-se-me corpo abaixo como a toalha estendida ao vento, as almofadas açoitadas, mantas a largar gotas que marcam um compasso. Assim o dia. A noite segue descendente sobre e sob o corpo abandonado sem pudor ou recato. Coxas e pernas sofá afora, pedaços a fugir às amarras.  Talvez seja só sono, ou cansaço. Há grilos insistentes, um cão a ladrar longe de fala estridente e eu a sentir o dia partir. Se calhar tenho outras coisas, silêncios instalados que me trazem calada ou maresias íntimas recolhidas como a mulher recolhia vontades e amanhã não comerei pão no jejum pudico de não adentrar outros. Estico as pernas e contemplo as unhas pintadas de vermelho-framboesa, alinhadas com as das mãos, e as pernas beijadas pelo zénite, tudo efémero e insignificante. Podiam ficar assim sempre, sou mais  feliz amada pelo sol mas o outono trará recolhimento e pudores, e já não apanharei maresias. Que interessa o meu vermelho-framboesa, o cansaço e o dia a deslizar-se-me? Tanto quanto o cão de ladrar estridente, os pudores de outono, as pernas beijadas pelo zénite temperadas de maresia ou estas palavras. Coisa nenhuma.

2 Aug 2020

Fim de tarde e isso

O sol de fim de tarde tem a brandura de um amor ternurento. Aquece-me o braço e a perna direita enquanto me sento no degrau morno de um dia de verão incerto, o mais certo dia de verão a oeste. Sopra vento de baixo e que pelos pontos cardeais por onde me oriento seria de oeste, vem do mar, e o mar está a oeste mas forte e impiedoso só pode ser do norte, não tem meias palavras nem cerimónias, poucas concessões e a determinação irritante dos teimosos solitários. Faço sombra à Julieta, sentada de pernas escachadas sem pudor e pés nus no chão. A roupa estendida ondula ao sabor do vento e eu vejo as várias mulheres no macacão preto, no vermelho, no de flores brancas e verdes com um centro amarelo, sou menos eu no vestido longo e fluido de flores pequenas que desencantei na memória do guarda-roupa. Se calhar quero ser o que já não sou mas o vestido serve-me, assenta no peito na perfeição. Talvez não seja assim tão outra. Agora que me virei tenho o sol de frente e uma revoada de vento açoita os pedaços com que cubro o corpo, até as intimidades resguardadas se agitam levemente, e o perfume do detergente em promoção no supermercado augura a sensualidade dos lençóis lavados e secos ao vento e ao sol. Os estendais contam tantas estórias e desvendam outras tantas intimidades, se os observamos atentamente. Um olhar indiscreto sobre quem somos por baixo do que aparentamos ser, de gravatas e composturas, blusas imaculadas de ferros prendados. Velha, um dia, podia sentar me numa cadeira de abrir ou de fechar, é sempre tudo uma questão de perspectiva, e contar os outros com as mãos cruzadas sobre a barriga rotunda, se calhar nessa altura já teria barriga, mas os escritores não se revelam em cadeiras de abrir, agora está frio, eu tenho de apanhar a roupa e também nunca serei escritora.

30 Jul 2020

Crescente

Sem lentes nem óculos, a lua está envolta em névoa enquanto me espreguiço do dia e o deixo partir com a brisa muda. Longe. Vai. Larga-me agora que a noite me abraça num verão fingido e me lambe os braços com a cerimónia dos amores inexperientes. Fecho os olhos como no tempo em que adentrava a noite sem óculos nem lentes e os cerrava em fresta como foco, que mania esta de fechar os olhos para ver melhor, logo à noite em que, dizem, todos os gatos são pardos, como se todos os gatos fossem sempre pardos. Depois procuro na miopia e na névoa a fase da lua. Cresce? Não me sei às vezes.

27 Jul 2020

Traços descontínuos

Ao que parece os programas sobre futebol na SIC N acabaram. Parece que eram tóxicos e isso. Para mim que de futebol só vejo o garbo de alguns jogadores, ai meu rico Virgil van Dijk, vá, chamem-me sexista agora, os programas eram uma grande peixeirada. Se fossem mulheres estariam todas ou com tpm ou com o período ou na menopausa ou com falta de homem. As mulheres têm sempre algo que desculpe as suas convicções e justifique a sua determinação. Assim eram só machos-alfa a discutir fervorosamente o desporto-rei, rapazes entusiasmados com a bola, já se sabe como são e desculpam-se os exageros, os decibéis e algum desajuste de linguagem. "A SIC Notícias decidiu descontinuar os programas de desporto (...)" anunciaram. E o que eu gosto deste 'descontinuar', que belo eufemismo. Vou passar a usar nas mais variadas situações: 'peço desculpa, mas a minha paciência para te aturar foi descontinuada'. Pode ser a paciência de tudo, de ouvir dislates, e até a vontade de pessoas, 'a minha vontade de ti foi descontinuada', na escola posso sempre alegar que 'o cumprimento acéfalo de tarefas burocráticas foi descontinuado' e passarei a fazer o que a inteligência e o pragmatismo prescreverem, correndo o sério risco de me descontinuarem também. E quando me acharem muito diferente posso sempre alertar para o óbvio 'essa mulher de que falas foi descontinuada', tal como o cano do meu aspirador quando lhe virei as escovas de borco, ele se finou num estalido seco, e quis comprar um cano novo, também ele tinha sido descontinuado. Como nós todos, peças que se descontinuam, a pele lisa, as mamas hirtas, o contorno do rosto, as pálpebras, as barrigas firmes de onde se avistavam os pêlos púbicos. Neste covidiano as possibilidades são infinitas, a pior delas todas é a liberdade ter sido descontinuada e com ela quase os afectos e o toque, os beijos, os abraços, a proximidade, a genuinidade da aproximação quando revemos ou conhecemos alguém. Descontinuámo-nos.

18 Jul 2020

Domingos assim

Hoje ninguém cortou relva, aparou as sebes ou podou o canavial. Hoje nem o Lady in Red tocou a altos berros nas colunas do vizinho umas casas abaixo perto do da sebe e também não houve rock delambido que nos atirava para os corpos inexperientes nas décadas em que a televisão era a preto e branco. O sino da aldeia tocou agora, sem ambição de carrilhões da vila, deram-lhe dois açoites bem dados, grunhiu duas badaladas e votou-se ao silêncio. A araucária ergue-se-me hirta entre as pernas flectidas e também há uma chaminé encimada com um triângulo. Não houvesse pássaros e talvez fosse isto o silêncio. Não fosse isto o Oeste e o sol continuaria brilhante de azuis estridentes. Não fosse eu eu e isto era só uma mulher deitada numa espreguiçadeira numa tarde de sábado a ver chegar a neblina. Se não te desse para escrever baboseiras era o que fazias de melhor, ó.

10 Jul 2020

Frampton comes alive

Isto deve ser por lá uma resposta a um estímulo que foi assim que os behavioristas apelidaram este processo de reagir sem pensar a algo que nos toca. Eu sou um animal bastante reagente. Não posso ver mar que me apetece cheirá-lo, não posso ver uma imagem de ouriços, ostras, um belo gin tónico, que me apetece comê-los e tomá-lo, e se vir uma cidade bela apetece-me correr-lhe para os braços e fazer-lhe amor, o erotismo do belo é tramado, graças aos deuses coibo-me de cheirar pescoços perfumados, este meu nariz é a minha bússola, a minha desgraça e a minha felicidade sensorial, a minha vida.
Acontece o mesmo com a música e as palavras. Umas levam a outras, o Chardonnay conduz-me para o 'Ironic' da Alanis Morissette, o que não é mau porque é uma grande canção. Se ouvir 'Jump" é sempre Go ahead, jump, se estiver contrariada ouço 'You can't always get what you want' e se andar colorida 'She's like a rainbow.' Em dias de trevas, e tenho alguns, é Amy, sempre, este processo de arranhar feridas é bem mais preocupante do que o behaviorismo, nos ocasos de outono Johnny Lee Hooker, 'something's gonna change', e como sou falta de ar 'Breathe' assalta-me muito, ora de Midge Ur ora de Pearl Jam, mais 'just' menos 'just'. E depois disto tudo, aqui está ao que venho: é que tenho encontrado o Peter Frampton ali na estrada nacional quando vou e venho de Mafra. Está magrito, usa sempre a mesma t-shirt e uns calções, a trunfa não engana e nos meus ouvidos só ouço 'oh won't you, show me the way/ I want you show me the way'. Há dois dias que ando nisto. Não podia ser antes o Lenny Kravitz, ou Jon Bon Jovi, ou o Ben Harper ou o Sting com menos dez anos? Podia ser que conseguisse esquecer a música se visse estes miúdos no passeio pedonal, estrada nacional 116. 'I want to get away, I wanna fly away'.

12 May 2020

Papá

Por esta hora já terias refilado contra a insistência nas comemorações do 25 de abril, nas do primeiro de maio na rua, e talvez do Avante, que ideia peregrina, dirias, mas poderias muito bem ter feito o contrário. Eras mestre no espírito de contradição que me levava ao limite tantas vezes. Terias refilado bastante. Isso sei. Já de Fátima dirias o previsível, tu e Fátima numa só frase pouco tinham de católico, muito menos de cordato e herdei de ti a total ausência de fé mariana. Hoje, num dia sem pandemia, ou apesar dela, terias entrado tão feliz cá em casa como sempre fizeste, nunca te vi aborrecido aqui. Terias admirado o azevinho, e a glicínia que se reverbera em exuberantes humores lilazes, em cascata sobre a pérgula. Depois entravas na casa perfumada com o leite-creme acabado de queimar e na nossa eucaristia brindaríamos com um Dão encorpado, o mesmo que procuro quando estou à lareira no inverno, comigo em mim, e te procuro e celebro com o crepitar da lenha, o aroma apaziguante do madeiro, a infância que recriamos feliz quando ninguém era morto, e havia farturas na feira e míscaros no outono. Hoje é o teu dia. Sem leite-creme nem Dão. Não me chamaste filhota nem Nocas. O azevinho continua enorme, e vi o primeiro pirilampo quando fui respirar noite. Parabéns, Papá. Da tua filhota.

8 Apr 2018

Começo porque começo e acabarei porque acabarei. Sem metafísica, beleza ou outra preocupação que não seja a de uma mulher que divaga.