Se calhar não devia lembrar-me disto porque estou exausta e o cansaço traz no bolso estados depressivos que me atira como rede em mares abertos. Sei que foi a primeira vez que fui ao cinema e foi isto na altura em que os adultos tinham vida própria além dos filhos e a minha mãe e a minha avó decidiram que a cidade era grande e bela e se deitaram a calcorreá-la, e agora que falo nisto, vejo quanto de ambas sou e as saudades que tenho de uma cidade grande. O meu pai levou-me e quase garantia que foi no Éden, garanto que foi no Éden, que também já não é cinema, mas nada é do que era, e eu também já não sou a adolescente insegura a aturar quem me ocupou tempo a mais e de mais e também não sou a criança que naquele dia veria o filme que me ficou para sempre, já não tenho a mão do meu pai, nem sequer sou a mulher que já fui e a que estive hoje e que desaparecerá quando me entregar aos demónios noturnos. Foi isto no tempo antes de odiar musicais mas já não gostava de favas e ainda não tinha cabelo indomável mas era no tempo em que íamos ao Jerónimo Martins ali à Rua do Carmo à procura de carne seca e feijão preto.Tenho a certeza que foi no tempo dos verões na Figueira da Foz, se se pode chamar verão aos açoites enfurecidos da areia e água fria que eu nunca permitia subir acima do tornozelo, mas havia robertos e bolacha americana e o Né chorava muito quando o queriam meter no mar. Nessa altura ainda não tinha saudades da bolacha americana nem do Né, e tenho tantas, meu primo tonto. Também foi no tempo em que a prima Deolinda morava na Rua da Beneficência, o tio Luis na Morais Soares e foi mais ao menos neste tempo que fiquei a odiar fardas verdes e que percebi que se calhar por causa das fardas verdes o Luís desertou para a Bélgica e a Dona Isaura chorou de tristeza e alegria quando o telefone tocou a dar boa nova em código na casa dos meus pais. Também foi nessa altura que apareceu o 'Fátima Desmascarada' lá em casa. Anos mais tarde fazia-se revolução mas antes eu fui ver o 'Música no Coração' ao Éden e não era Inverno, e era o Éden, tenho a certeza, com o meu pai. Eu, ele e o Capitão von Trapp fomos felizes décadas afora. Até hoje.
7 Feb 2021
1 Oct 2020
Corar ao luar
Podia ser aquela camisola preferida, o top cinzento de momentos de solidão aprazível, o vestido cor de abóbora que me disseram hoje ficar a condizer com a casa de banho da escola, ou as botas de camurça que levaste na correria do quotidiano para a cozinha e que salpicaste com o azeite virgem suave, nem sei de onde vêm estas expressões ridículas de virgindade patriarcal. Podes ser tu. A vida que te salpica de manchas para as quais não há solução, não são nódoas, são marcas. Tu não sabes. Ainda. E lavas. Lavas outra vez, esfregas com a raiva de dias amargos e se tomares atenção, repara bem, continuam lá, mais ou menos percetíveis, os outros não vêem. Estendes-te ao sol, deixas-te corar ao luar, com sorte apanhas orvalho e estarás hirto e gelado que nem bacalhau da Islândia ou da Noruega, tanto faz para ti, que tremendo disparate e que grata memória de infância. Não saiu a marca. Esfregas-te mais. Outra vez. Outra ainda. Vê lá se se notas alguma coisa. Não vejo nada, dizem-me, não se nota. Tu sabes que não se nota. Que notam os outros de ti? Lavas a vida inteira, esfregas, coras-te ao luar. Tu és o top cinzento, as botas de camurça, se calhar o vestido cor de abóbora. Desiste de esfregar. Esquece o corar ao luar. Não sai mais. Vê lá se notas alguma coisa. Não vejo nada, dizem-me. Eu sei.
9 Sept 2020
Não sei muito bem se isto que tenho é sono ou o dia a escorrer-se-me corpo abaixo como a toalha estendida ao vento, as almofadas açoitadas, mantas a largar gotas que marcam um compasso. Assim o dia. A noite segue descendente sobre e sob o corpo abandonado sem pudor ou recato. Coxas e pernas sofá afora, pedaços a fugir às amarras. Talvez seja só sono, ou cansaço. Há grilos insistentes, um cão a ladrar longe de fala estridente e eu a sentir o dia partir. Se calhar tenho outras coisas, silêncios instalados que me trazem calada ou maresias íntimas recolhidas como a mulher recolhia vontades e amanhã não comerei pão no jejum pudico de não adentrar outros. Estico as pernas e contemplo as unhas pintadas de vermelho-framboesa, alinhadas com as das mãos, e as pernas beijadas pelo zénite, tudo efémero e insignificante. Podiam ficar assim sempre, sou mais feliz amada pelo sol mas o outono trará recolhimento e pudores, e já não apanharei maresias. Que interessa o meu vermelho-framboesa, o cansaço e o dia a deslizar-se-me? Tanto quanto o cão de ladrar estridente, os pudores de outono, as pernas beijadas pelo zénite temperadas de maresia ou estas palavras. Coisa nenhuma.