7 Aug 2020

Intermitências do sono

Pudesse eu lembrar-me como te reencontrei e talvez soubesse de abraços longos e envolventes ou beijos furtivos que se tornaram longos e quentes como a brisa nocturna de verões cálidos. E presentes. Não sei quantos anos de ausência. Dez, quinze, sempre. O epitáfio que quase te escrevi, o anúncio aflito à tua procura, e as partilhas que hoje nada há além de likes e partilhas. Nao estavas nem eras. Fosse eu outra coisa que não eu, e pouco me interessaria porque voltaste. Se calhar, o jeito doce de te chamar, vem, meu amor, vem agora, a mulher convenientemente  submissa, astuta e matreira  para atrair o objecto desejado, ou o ímpeto de te sacudir nas horas impróprias, és feito de incógnitas e surpresas. Tantas que voltaste sem mais. E agora, neste mesmo momento em que arrumo o dia e solto o corpo estás perto e somos um até as palavras me faltarem e  restará o silêncio e nós. Fica comigo. Preciso-te, meu sono adorado. Tanto.

2 Aug 2020

Fim de tarde e isso

O sol de fim de tarde tem a brandura de um amor ternurento. Aquece-me o braço e a perna direita enquanto me sento no degrau morno de um dia de verão incerto, o mais certo dia de verão a oeste. Sopra vento de baixo e que pelos pontos cardeais por onde me oriento seria de oeste, vem do mar, e o mar está a oeste mas forte e impiedoso só pode ser do norte, não tem meias palavras nem cerimónias, poucas concessões e a determinação irritante dos teimosos solitários. Faço sombra à Julieta, sentada de pernas escachadas sem pudor e pés nus no chão. A roupa estendida ondula ao sabor do vento e eu vejo as várias mulheres no macacão preto, no vermelho, no de flores brancas e verdes com um centro amarelo, sou menos eu no vestido longo e fluido de flores pequenas que desencantei na memória do guarda-roupa. Se calhar quero ser o que já não sou mas o vestido serve-me, assenta no peito na perfeição. Talvez não seja assim tão outra. Agora que me virei tenho o sol de frente e uma revoada de vento açoita os pedaços com que cubro o corpo, até as intimidades resguardadas se agitam levemente, e o perfume do detergente em promoção no supermercado augura a sensualidade dos lençóis lavados e secos ao vento e ao sol. Os estendais contam tantas estórias e desvendam outras tantas intimidades, se os observamos atentamente. Um olhar indiscreto sobre quem somos por baixo do que aparentamos ser, de gravatas e composturas, blusas imaculadas de ferros prendados. Velha, um dia, podia sentar me numa cadeira de abrir ou de fechar, é sempre tudo uma questão de perspectiva, e contar os outros com as mãos cruzadas sobre a barriga rotunda, se calhar nessa altura já teria barriga, mas os escritores não se revelam em cadeiras de abrir, agora está frio, eu tenho de apanhar a roupa e também nunca serei escritora.

30 Jul 2020

Crescente

Sem lentes nem óculos, a lua está envolta em névoa enquanto me espreguiço do dia e o deixo partir com a brisa muda. Longe. Vai. Larga-me agora que a noite me abraça num verão fingido e me lambe os braços com a cerimónia dos amores inexperientes. Fecho os olhos como no tempo em que adentrava a noite sem óculos nem lentes e os cerrava em fresta como foco, que mania esta de fechar os olhos para ver melhor, logo à noite em que, dizem, todos os gatos são pardos, como se todos os gatos fossem sempre pardos. Depois procuro na miopia e na névoa a fase da lua. Cresce? Não me sei às vezes.

27 Jul 2020

Traços descontínuos

Ao que parece os programas sobre futebol na SIC N acabaram. Parece que eram tóxicos e isso. Para mim que de futebol só vejo o garbo de alguns jogadores, ai meu rico Virgil van Dijk, vá, chamem-me sexista agora, os programas eram uma grande peixeirada. Se fossem mulheres estariam todas ou com tpm ou com o período ou na menopausa ou com falta de homem. As mulheres têm sempre algo que desculpe as suas convicções e justifique a sua determinação. Assim eram só machos-alfa a discutir fervorosamente o desporto-rei, rapazes entusiasmados com a bola, já se sabe como são e desculpam-se os exageros, os decibéis e algum desajuste de linguagem. "A SIC Notícias decidiu descontinuar os programas de desporto (...)" anunciaram. E o que eu gosto deste 'descontinuar', que belo eufemismo. Vou passar a usar nas mais variadas situações: 'peço desculpa, mas a minha paciência para te aturar foi descontinuada'. Pode ser a paciência de tudo, de ouvir dislates, e até a vontade de pessoas, 'a minha vontade de ti foi descontinuada', na escola posso sempre alegar que 'o cumprimento acéfalo de tarefas burocráticas foi descontinuado' e passarei a fazer o que a inteligência e o pragmatismo prescreverem, correndo o sério risco de me descontinuarem também. E quando me acharem muito diferente posso sempre alertar para o óbvio 'essa mulher de que falas foi descontinuada', tal como o cano do meu aspirador quando lhe virei as escovas de borco, ele se finou num estalido seco, e quis comprar um cano novo, também ele tinha sido descontinuado. Como nós todos, peças que se descontinuam, a pele lisa, as mamas hirtas, o contorno do rosto, as pálpebras, as barrigas firmes de onde se avistavam os pêlos púbicos. Neste covidiano as possibilidades são infinitas, a pior delas todas é a liberdade ter sido descontinuada e com ela quase os afectos e o toque, os beijos, os abraços, a proximidade, a genuinidade da aproximação quando revemos ou conhecemos alguém. Descontinuámo-nos.

25 Jul 2020

O vizinho mudou. Estendo as pernas ao sol para Oeste. Não há brisa. Há vento a cansar os canaviais, o chapéu de sol geme e retiro os chinelos do sol. São pretos e sei que me aquecerão as solas dos pés em fornalha quando os voltar a calçar. São 16.54. Não posso deixar passar a hora do anti-inflamatório, lá para as 17.30, quando o sol tiver descido e o meu corpo for todo iluminado pelo astro-rei, não é o caso agora, e também não é importante porque agora mesmo sopra um vento mais forte e tocam as badaladas do sino da aldeia dois minutos antes do esperado e ninguém quer saber de corpos ao sol, vento e Oeste. Se pudesse enterrava os pés na relva e mexia os dedos alternadamente, tão infantil e inesperado como quando saio a porta e respiro as noites frescas que me açoitam os braços e bebo o silêncio das noites mudas. Que me terá dado para passar a apreciar a morrinha das noites de nevoeiro e o açoite fresco nos braços? Mudei. Se calhar. Talvez mais do que o vizinho que largou Lady in Red e agora ouve Ed Sheeran e a Cardi B com outro caramelo qualquer. Antes assim. Mudámos todos e mudamos sempre, que os deuses nos permitam a mudança.
São 17.14 e não me posso esquecer do anti-inflamatório.

18 Jul 2020

Domingos assim

Hoje ninguém cortou relva, aparou as sebes ou podou o canavial. Hoje nem o Lady in Red tocou a altos berros nas colunas do vizinho umas casas abaixo perto do da sebe e também não houve rock delambido que nos atirava para os corpos inexperientes nas décadas em que a televisão era a preto e branco. O sino da aldeia tocou agora, sem ambição de carrilhões da vila, deram-lhe dois açoites bem dados, grunhiu duas badaladas e votou-se ao silêncio. A araucária ergue-se-me hirta entre as pernas flectidas e também há uma chaminé encimada com um triângulo. Não houvesse pássaros e talvez fosse isto o silêncio. Não fosse isto o Oeste e o sol continuaria brilhante de azuis estridentes. Não fosse eu eu e isto era só uma mulher deitada numa espreguiçadeira numa tarde de sábado a ver chegar a neblina. Se não te desse para escrever baboseiras era o que fazias de melhor, ó.

16 Jul 2020

Espera

Sento-me no lambril com os pés nus na relva à espera da brisa. Espero. Talvez seja ela que vem lá ao longe, ouvi-a passear-se nos pinheiros ou talvez no canavial, ainda não aprendi a linguagem das árvores, talvez seja. O corpo denuncia o calor, abandonado e livre das amarras do dever do decoro social. Estendo as pernas nuas e interrompo o silêncio com o restolhar da relva. Há um cão de ladrar agudo que reclama lá longe. Se calhar, podia estender-me na espreguiçadeira e sonhar os sonhos perdidos ou captar vontades e espíritos que a noite larga quando apaga o dia, enquanto espero. Soubesse eu de estrelas e planetas e saberia o que é aquilo que brilha sobre a copa dos pinheiros, se tivesse óculos saberia se é uma estrela ou um planeta mas a noite quer-se terna e ver de mais não ajuda ao apaziguar das almas. Sem lentes nem óculos sei do aroma da humidade sobre a relva e sobre as hidrângeas, sei do estio que se abateu sobre o mato seco, sei da hortelã. Espero. Não vem. Quase parece um amor perdido. Não espero mais. Boa noite. Que noite boa. Cala-te, cão.