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11 Feb 2021

Crónicas síncronas

 Isto hoje estava quase para começar bem: um fim de noite à lareira, a ouvir crepitar os restos de um dia inquieto, uma noite descansada e bem dormida, e eis que se me apresenta 'um dia novinho em folha a estrear', e cito, esta frase não é minha, ouvi-a algures e parece-me muito bem. Estava cinzento e húmido e a opção de ensino não presencial pareceu-me quase bem: estou em casa, confortável, sem máscara, no silêncio que bebo em cascata, e quase parecia feliz. Às 8.15 começo a ligar-me à aula, ligo o Meet, espero que cheguem, e aí vêm eles, meio ensonados e ainda tímidos. Finalmente consigo ver rostos inteiros e pessoas e dou-me por muito feliz. Isto foi antes de eu começar a ver as caras desaparecerem, as vozes a ficarem entrecortadas e eu entrar discretamente em desespero e a perguntar 'estão-me a ouvir, meninos?’ ‘Agora estamos, mas a stora desapareceu.’ Segundos mais tarde a Libânia ficou suspensa na atividade de apresentar um objeto começado por B, depois foi o Quitério que conseguiu apresentar o segundo objeto que era um presente e também era começado por B porque era um 'book' e era o 'Erro de Descartes', e ainda tive tempo de lhe ensinar que o p é mudo em psychology e psychological e por aí fora, e estava em enlevo por um miúdo de 15 anos andar a ler o Damásio, o mesmo que num dia explicou tranquilo e carismático que pai e mãe já tinham sido vacinados e a turma comentou ‘parecias um político agora’ e político era homem bem-falante e falado de discurso escorreito e claro, que se esclareça o que é de esclarecer. Depois eles fugiram todos. Começaram por ficar bolas com iniciais e a seguir o ecrã avisou-me que tinha sido desconectada mais ou menos ao mesmo tempo de ouvir o roncar do corta-relva, e insistiu tanto que talvez pudesse haver relva no asfalto ou nos muros, a erguer-se pelos céus. Por esta altura eu tinha voltado ‘olá, meninos, voltei’, a Catilina mostrou o cão como ‘something that makes you happy’, e o Firmino o violino, sabia lá eu que o Firmino tocava violino, mas também não sabia que o Quitério lia o Damásio, ainda que não me surpreendesse que a Alina estivesse a ler ‘a subtil arte de dizer que se f*da’, nunca é tarde para aprender a subtileza. E foi tudo isto com o ronco em crescendo do corta-relva, santa ingenuidade, um corta-relva. Estávamos já na página 58 do textbook quando com a net a deslaçar-se, o corta-relva no auge e um alvorço de vozes e motores, dei por terminada a sessão síncrona do dia onze do mês de fevereiro de dois mil e vinte e um. Lá fora, duas árvores tombavam calculadamente entre indicações e instruções, diz que estavam podres, tinham de ser abatidas, só não perguntei se tinha mesmo de ser hoje, dia onze do mês de fevereiro de dois mil e vinte e um, logo quando o Quitério disse psychology e eu lhe relembrei que o p era mudo.

24 Sept 2020

People are strange

Uma mulher tem um dia preenchido, abandona as aulas e a escola, e esperam-na compras ridículas de supermercado: não havia detergente para a louça. Adentra o dito estabelecimento que evita tanto como janeiro, repara que há vinhos em promoção, compra uns sprays desinfetantes, cápsulas para café, que acabe o mundo menos café e pores-do-sol, deixa que baixe sobre ela o deusnossosenhor dos jantares frugais, uma salada iceberg coroada com um abacate em meias-luas, para a seguir ceder a Diónisos e Lúcifer e comprar um chouriço de porco preto cheio de gordura e inomináveis substâncias malévolas e pecadoras, que Apolo me perdoe, um pedaço de queijo amanteigado da Terceira que casa na perfeição com o Picaroto que repousa paciente no frigorífico, e manda às urtigas a intenção da frugalidade, adia-la-á para dias também eles frugais e desinteressantes. Falta-lhe álcool para castigar o chouriço e o ver a retorcer-se na chama excitada pela gordura. Volta quase ao ponto de partida, ao corredor de tampões de ouvidos e preservativos e  procura álcool, simplesmente álcool como a Maria do folhetim da rádio, benzadeus, a esta hora estará a fazer tijolo, pobre alma sofredora. Aguarda-a uma exposição abundante de álcool, mas gel. Ele há de vários tamanhos, espessuras e texturas diversas, aromas e fins distintos. Há de tudo. Um escaparate inteiro que àquela hora me confundia e desesperava. Faltava apenas álcool a 96°, daquele bravo que arde em força. Voltar para trás era refazer planos. Não depois de ter o Assobio no carrinho e uma terrível vontade de conforto. Vi-me pois na contingência de usar álcool-gel a cheirar a lavanda, o rosmaninho fica quase sempre bem com a carne, e isto porque não havia com cheiro a tomilho, o casamento perfeito. Os Doors é que a sabiam toda: 'Strange Days'.

30 Apr 2020

it's all sad goodbyes


O Ramiro chegou atrasado. Rimos todos muito porque o Ramiro chegava sempre atrasado e agora também, e houve quem lhe tivesse perguntado se o autocarro tinha chegado tarde. Que parvoíce. Como quando lhes disse que me tinha perfumado e a Catarina reclamou, ó stora, mas nós não conseguimos cheirar! Não, Catarina, claro que não. O Vitório não conseguia entrar porque a língua da app era árabe e ele não entendia, e reclamou a aula toda até a Luzinha o ter ajudado. O Rogério deixou crescer o bigode, o Jaime rapou o cabelo, o Manuel deixou o cão na cadeira quando se ausentou por segundos, e continuou sendo ele, como o atraso do Ramiro, a constatação da Catarina, e a desolação de dias prolongados de nós e só nós. A Mara mostra sempre o sorriso doce, a Matilde é sempre a primeira a chegar como a Mara, e ao contrário do Ramiro. Olho para a relva que brilha do lado de lá da porta, enquanto a Marinela e a Francisca partilham a sua música preferida, o éter se rende à voz rouca de James Brown, e as 26 quadrículas se calam, depois de alguém gritar mute the mic! Também se partilhou Bob Marley, George Michael e Whitney Houston, do outro lado disseram pelo chat que estavam a dançar, mas agora havia ruído de crianças. Falámos de filmes, a Eunice disse que os ia ver e eu adverti para a linguagem e as cenas fortes e a Carmina assentiu, sim, stora, nós sabemos, mais faladora do que o atraso do Ramiro e a observação da Catarina, sendo mais ela do que antes fora. Ficámos todos muito felizes com filmes, música e mundo, e animaram-se bastante quando disse que para a próxima aula faríamos um kahoot. Quase parecia tudo normal. Vá, miúdos, vão saindo que eu sou a última, capitã do bote que navego pelas estrelas da intuição, o Norte e o Sul de mim, a maresia que me guia. Vá, miúdos, eu sou a última. Adeus, stora. Lá fora está sol e eu tenho uma vontade estúpida de chorar. Adeus, miúdos.

8 Apr 2020

fora de portas


Se tivesse de viver de enlatados, congelados, massa e arroz, viveria, a tudo nos habituamos, e aí vem adversativa, mas não temos ainda, não tenho e como tal lá me aventurei mais uma vez fora de portas no encalço de fruta e legumes. Primeira paragem: mercearia da aldeia. Estavam a chegar brócolos, havia grelos de couve e de nabiça, agriões, salsa e coentros, espinafres, tudo à porta para apanhar a brisa dos dias, duas ou três pessoas esperavam cá fora, só entra uma pessoa de cada vez, e já tinha desaparecido a mulher do cabelo esticado que bufava a cada minuto de espera naquele dia de sol, um outro, tanta impaciência que tive vontade de lhe lançar o meu olhar soviético. Lá dentro uma mulher de cabelo todo branco e modos lentos a quem eu me arrependo de não ter perguntado se precisava de alguma coisa, em vez de começar ouvir em surdina o povo a 'deslargar' impropérios ao raio da velha que anda na rua, sim, os velhos, raios os partam FIQUEM EM CASA, crl!, depois saí com o saco transbordante de morangos a perfumar a rua e o dia, e a mercearia lá ficou no seu remanso. Segunda paragem numa grande superficie, desinfectei-me à entrada, já me tinha desinfectado quando saí da mercearia, e continuei cheia de cuidados e receios, a mulher atrás de mim na fila trazia ao colo as compras, por apurar ficará se por preguiça ou precaução, e quase juraria que estava demasiado perto, não que o visse, mas sentia a presença ameaçadora da mulher, xô, cinco centímetros para trás, vá!, sois todos prevaricadores até prova em contrário. E por fim, farmácia, estava perto, fui até a pé, graças aos deuses ninguém me mandou para casa naqueles 100 metros,e não havia varandas, já o farmacêutico bem parecido cumpriu o seu dever escrupuloso quando lhe pedi uma daquelas mistelas naturais para o sono e que ele assumiu como um perigoso preparado químico 'está habituada a tomar isto?' estava sim, senhor, acrescentei um 'infelizmente, ar de coitadinha dá sempre jeito e eu tenho tanto por usar que resolvi dispensar-lhe uma porção, e também lhe ocultei que num dia de aflição sozinha no carro à porta da farmácia emborquei cinco balas de valeriana para conter infelicidades teimosas que ainda se riram de mim e continuaram ufanas como cauda de gato persa no ar. Meti-me no carro, deixei as compras à minha mãe, por dar ficaram todos os abraços e beijos à minha pequenita, e eu debaixo do fogo aberto dos pides de varanda  consegui chegar a casa. Sã e salva.Ufa.

2 Apr 2020

Do fim dos dias


Lá fora a hera parece crescer, as hostênsias têm folhas verdes brilhantes, e os limoeiros estão prenhes de pontos amarelos que antevejo e quase sinto rugosos nas minhas mãos ásperas. Quase e parecer. Incertezas e incógnitas. A casa está quieta, janelas fechadas, a porta verde da garagem fechada por onde um dia vi entrar o padre de paramentos e alguém me avisou 'olha, está alguém para bater a bota naquela casa' tanta pompa só podia ser extrema-unção, e nós, indiferentes ao calendário lá fora, só o mesmo senhor desde há dois milénios anos tinha morrido, e desta vez morrera outra vez. Tira o primeiro e põe uma vírgula, ouço, a Ruiva espreita pela janela, o perfume do chá espalha a sensação fictícia de calma. Envia para o emai, ouço outra vez, ou esmai, sei lá eu destes acrónimos e da vida, vou-te mandar, alguém diz, a hera brilha agora com o sol que vai baixando. A casa continua quieta e ouço o suspiro de alguém que se esqueceu de desligar o microfone. O Franciscano é antes do Riacrdino. Juntas pargrafos. 8388, falta o p, ‘pera aí. Isto fui eu que escrevi, alguém discorda e discutem-se palavras no limiar do tempo. Fala-se de sentido de humor. A hera perdeu o brilho e o aroma do chá diluiu-se neste fim de tarde do fim dos tempos. Põe c e tira a vírgula. Falta um ponto final no primeiro parágafo. Prática simulada, alguém acrescenta, posso continuar, perguntam. Podemos todos continuar. O sol abriu entretanto, ressoa no cortinado alvo da esquerda, a casa amarela continua quieta de janelas e portas verdes fechadas, os limoeiros dançam ao ritmo do vento. Passa uma mulher magra deglutida na esquina da casa quieta. O sol escondeu-se outra vez e a Julieta aparece na porta. Tenho os pés frios. Dias assim agora.

28 Mar 2020


Se calhar foi a Violeta que se lembrou que estávamos no fim do período e que estava na altura de fazermos a nossa habitual festa. A Libéria revirou os olhos porque é pespenica a roçar o irritante, exige a sua razão sobre os demais, e revira ainda mais os olhos se a contrariam. O Júlio por esta hora estava a colher afectos nos seios rotundos da Bibiana e concordou quando lhe perguntei se estava carente, concordou também com os olhos e espanou a brisa da primavera com a ponta do rabo de cavalo no colo da Bibiana. O Gabriel disse que ia falar com a mãe para fazer um bolo, e a Violeta achou por bem fazer uma lista de quem trazia o quê. Avisei que além do bolo traria uma toalha, e os rapazes alistaram-se nas coca-colas e sumos. Depois, a Catarina disse que ia trazer também uma torta de chocolate, e a Mirtila que trazia uns biscoitos do supermercado porque a mãe não tinha tempo e ela também não, que é um bocadinho aparentada da Libéria na pespeniquice, o Ramiro caiu este ano na turma e ficará por decidir se é tímido ou outra coisa qualquer, mas não se manifestou nem se alistou para sumos, coca-colas ou bolos, não lhe interessam festas nem coisa nenhuma, e escondeu-se como um gato, atrás da Bibiana, convencido da sua invisibilidade, e eu também nada disse, os gatos sabem mais do que nós e ele sabe que se esconde dele próprio e do crush pela Violeta. A Catarina sorriu por trás dos óculos e declarou feliz 'gosto tanto de si, stora' e eu sorri com o coração e com tudo o que tinha mas depois havia só e apenas rostos do lado de lá do ecrã sem bolos nem toalhas, o rabo de cavalo do Júlio nunca mais foi visto, os seios rotundos da Bibiana também lhe sentem a falta, até a Libéria ficou menos pespenica, e da Violeta há silêncio. Deste lado houve uma tristeza desolada.  Chamam-lhe também solidão. Adeus, miúdos.