O Ramiro chegou atrasado. Rimos
todos muito porque o Ramiro chegava sempre atrasado e agora também, e houve
quem lhe tivesse perguntado se o autocarro tinha chegado tarde. Que parvoíce.
Como quando lhes disse que me tinha perfumado e a Catarina reclamou, ó stora,
mas nós não conseguimos cheirar! Não, Catarina, claro que não. O Vitório não
conseguia entrar porque a língua da app era árabe e ele não entendia, e
reclamou a aula toda até a Luzinha o ter ajudado. O Rogério deixou crescer o
bigode, o Jaime rapou o cabelo, o Manuel deixou o cão na cadeira quando se
ausentou por segundos, e continuou sendo ele, como o atraso do Ramiro, a
constatação da Catarina, e a desolação de dias prolongados de nós e só nós. A
Mara mostra sempre o sorriso doce, a Matilde é sempre a primeira a chegar como
a Mara, e ao contrário do Ramiro. Olho para a relva que brilha do lado de lá da
porta, enquanto a Marinela e a Francisca partilham a sua música preferida, o
éter se rende à voz rouca de James Brown, e as 26 quadrículas se calam, depois
de alguém gritar mute the mic! Também se partilhou Bob Marley, George Michael e
Whitney Houston, do outro lado disseram pelo chat que estavam a dançar, mas
agora havia ruído de crianças. Falámos de filmes, a Eunice disse que os ia ver
e eu adverti para a linguagem e as cenas fortes e a Carmina assentiu, sim,
stora, nós sabemos, mais faladora do que o atraso do Ramiro e a observação da
Catarina, sendo mais ela do que antes fora. Ficámos todos muito felizes com
filmes, música e mundo, e animaram-se bastante quando disse que para a próxima
aula faríamos um kahoot. Quase parecia tudo normal. Vá, miúdos, vão saindo que
eu sou a última, capitã do bote que navego pelas estrelas da intuição, o Norte
e o Sul de mim, a maresia que me guia. Vá, miúdos, eu sou a última. Adeus,
stora. Lá fora está sol e eu tenho uma vontade estúpida de chorar. Adeus,
miúdos.
30 Apr 2020
8 Apr 2020
fora de portas
Se tivesse de viver de enlatados,
congelados, massa e arroz, viveria, a tudo nos habituamos, e aí vem
adversativa, mas não temos ainda, não tenho e como tal lá me aventurei mais uma
vez fora de portas no encalço de fruta e legumes. Primeira paragem: mercearia
da aldeia. Estavam a chegar brócolos, havia grelos de couve e de nabiça,
agriões, salsa e coentros, espinafres, tudo à porta para apanhar a brisa dos
dias, duas ou três pessoas esperavam cá fora, só entra uma pessoa de cada vez,
e já tinha desaparecido a mulher do cabelo esticado que bufava a cada minuto de
espera naquele dia de sol, um outro, tanta impaciência que tive vontade de lhe
lançar o meu olhar soviético. Lá dentro uma mulher de cabelo todo branco e
modos lentos a quem eu me arrependo de não ter perguntado se precisava de
alguma coisa, em vez de começar ouvir em surdina o povo a 'deslargar'
impropérios ao raio da velha que anda na rua, sim, os velhos, raios os partam
FIQUEM EM CASA, crl!, depois saí com o saco transbordante de morangos a perfumar
a rua e o dia, e a mercearia lá ficou no seu remanso. Segunda paragem numa
grande superficie, desinfectei-me à entrada, já me tinha desinfectado quando
saí da mercearia, e continuei cheia de cuidados e receios, a mulher atrás de
mim na fila trazia ao colo as compras, por apurar ficará se por preguiça ou
precaução, e quase juraria que estava demasiado perto, não que o visse, mas
sentia a presença ameaçadora da mulher, xô, cinco centímetros para trás, vá!,
sois todos prevaricadores até prova em contrário. E por fim, farmácia, estava
perto, fui até a pé, graças aos deuses ninguém me mandou para casa naqueles 100
metros,e não havia varandas, já o farmacêutico bem parecido cumpriu o seu dever
escrupuloso quando lhe pedi uma daquelas mistelas naturais para o sono e que
ele assumiu como um perigoso preparado químico 'está habituada a tomar isto?'
estava sim, senhor, acrescentei um 'infelizmente, ar de coitadinha dá sempre
jeito e eu tenho tanto por usar que resolvi dispensar-lhe uma porção, e também
lhe ocultei que num dia de aflição sozinha no carro à porta da farmácia
emborquei cinco balas de valeriana para conter infelicidades teimosas que ainda
se riram de mim e continuaram ufanas como cauda de gato persa no ar. Meti-me no
carro, deixei as compras à minha mãe, por dar ficaram todos os abraços e beijos
à minha pequenita, e eu debaixo do fogo aberto dos pides de varanda consegui chegar a casa. Sã e salva.Ufa.
gavetas:
confinamento
2 Apr 2020
Do fim dos dias
Lá fora a hera
parece crescer, as hostênsias têm folhas verdes brilhantes, e os limoeiros
estão prenhes de pontos amarelos que antevejo e quase sinto rugosos nas minhas
mãos ásperas. Quase e parecer. Incertezas e incógnitas. A casa está quieta,
janelas fechadas, a porta verde da garagem fechada por onde um dia vi entrar o
padre de paramentos e alguém me avisou 'olha, está alguém para bater a bota
naquela casa' tanta pompa só podia ser extrema-unção, e nós, indiferentes ao
calendário lá fora, só o mesmo senhor desde há dois milénios anos tinha morrido,
e desta vez morrera outra vez. Tira o primeiro e põe uma vírgula, ouço, a Ruiva
espreita pela janela, o perfume do chá espalha a sensação fictícia de calma.
Envia para o emai, ouço outra vez, ou esmai, sei lá eu destes acrónimos e da
vida, vou-te mandar, alguém diz, a hera brilha agora com o sol que vai
baixando. A casa continua quieta e ouço o suspiro de alguém que se esqueceu de
desligar o microfone. O Franciscano é antes do Riacrdino. Juntas pargrafos.
8388, falta o p, ‘pera aí. Isto fui eu que escrevi, alguém discorda e
discutem-se palavras no limiar do tempo. Fala-se de sentido de humor. A hera
perdeu o brilho e o aroma do chá diluiu-se neste fim de tarde do fim dos
tempos. Põe c e tira a vírgula. Falta um ponto final no primeiro parágafo. Prática
simulada, alguém acrescenta, posso continuar, perguntam. Podemos todos
continuar. O sol abriu entretanto, ressoa no cortinado alvo da esquerda, a casa
amarela continua quieta de janelas e portas verdes fechadas, os limoeiros
dançam ao ritmo do vento. Passa uma mulher magra deglutida na esquina da casa
quieta. O sol escondeu-se outra vez e a Julieta aparece na porta. Tenho os pés
frios. Dias assim agora.
gavetas:
confinamento
28 Mar 2020
Se calhar foi a Violeta que se
lembrou que estávamos no fim do período e que estava na altura de fazermos a
nossa habitual festa. A Libéria revirou os olhos porque é pespenica a roçar o
irritante, exige a sua razão sobre os demais, e revira ainda mais os olhos se a
contrariam. O Júlio por esta hora estava a colher afectos nos seios rotundos da
Bibiana e concordou quando lhe perguntei se estava carente, concordou também
com os olhos e espanou a brisa da primavera com a ponta do rabo de cavalo no
colo da Bibiana. O Gabriel disse que ia falar com a mãe para fazer um bolo, e a
Violeta achou por bem fazer uma lista de quem trazia o quê. Avisei que além do
bolo traria uma toalha, e os rapazes alistaram-se nas coca-colas e sumos.
Depois, a Catarina disse que ia trazer também uma torta de chocolate, e a
Mirtila que trazia uns biscoitos do supermercado porque a mãe não tinha tempo e
ela também não, que é um bocadinho aparentada da Libéria na pespeniquice, o
Ramiro caiu este ano na turma e ficará por decidir se é tímido ou outra coisa
qualquer, mas não se manifestou nem se alistou para sumos, coca-colas ou bolos,
não lhe interessam festas nem coisa nenhuma, e escondeu-se como um gato, atrás
da Bibiana, convencido da sua invisibilidade, e eu também nada disse, os gatos
sabem mais do que nós e ele sabe que se esconde dele próprio e do crush pela
Violeta. A Catarina sorriu por trás dos óculos e declarou feliz 'gosto tanto de
si, stora' e eu sorri com o coração e com tudo o que tinha mas depois havia só
e apenas rostos do lado de lá do ecrã sem bolos nem toalhas, o rabo de cavalo
do Júlio nunca mais foi visto, os seios rotundos da Bibiana também lhe sentem a
falta, até a Libéria ficou menos pespenica, e da Violeta há silêncio. Deste
lado houve uma tristeza desolada.
Chamam-lhe também solidão. Adeus, miúdos.
gavetas:
confinamento,
para lá dos portões
29 Feb 2020
Nem
Tenho tantos cansaços que não sei como os chamar, cansaços plurais e histriónicos, cansaços que percorrem em mim caminhos sinuosos, costas abaixo, como um fio de mel espesso. Estendo-os esticando as pernas com o crepitar da lareira em fundo, um copo de tinto meio vazio que se afasta na medida em que distendo este corpo feito de horas e dias e meses, de tempo, chuvas e estações, e de mim, de calor e maresia, da bruma das manhãs, ajeito em circunferência o cabelo de medusa e penso qualquer coisa 'mostra-me esses silêncios de que és feito' e palavras assim que aparecem soltas e em qualquer momento. Sabem os deuses os seus desígnios e porque sou visitada por elas. Entendesse eu de deuses e de desígnios, e tudo seriam preces e orações. São palavras apenas, estas. Alimento a voracidade da lareira, e tento nada pensar para que o sono me visite. Nem em cansaços nem em frases nem em palavras nem em homens nem em mulheres. Nem
Pausa
Sol, luz, céu azul. Uma manhã de sol apazigua quase tudo, as palavras que se encarrilam em frase como quase sempre fazem, e que depois podem desaparecer se não as escrever ou que ficarão, assim as possa registar. E desde ontem que as procuro nesta tentativa egoísta de expulsar a devastação de te saber morto, nessa morte final e definitiva que te foi acontecendo, nessa incapacidade de me veres como tão bem me conhecias. Senti-te um bocadinho morto nesse dia, os teus olhos não reconheciam os meus, já não éramos nada.
Foi ontem. E eu não sei ainda se o pior é a revolta, esses deuses e desígnios, esse destino ou universo, isso que fez com que o corpo te traísse, logo tu, bom homem de coração aberto, bom professor, excelente colega, ou a dor de te saber morto. Que raio de coisas acontecem nesta vida que te impediram de gozar a tão merecida e desejada pausa de alunos e colegas, escola. Podiam ter-te dado tudo isso, os deuses, pausa, descanso, tempo para ti, tempo para tudo. Pausa da vida jamais.
6 Feb 2020
És tu? O toque de veludo que me serpenteia o corpo, o véu sereno sobre mim, o abraço suave que não sei de onde vem, serás tu? És tu que chegas, meu amor inesperado? Vem mais perto, mais ainda, não fujas. Não ouço os mochos nos pinheiros, os cães já não ladram, nada há senão nós na noite terna, silêncios pungentes onde nos detemos quando tu, e só tu queres, e eu me estendo, alma e corpo, submissa e recolhida. Nada temas de quem tanto te deseja. Não me abandones, meu sono adorado.
#crónicasdosono
gavetas:
sono
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