24 Sept 2020
People are strange
18 Sept 2020
Outono-Inverno
Os primeiros dias de chuva trazem o prenúncio do fim, a inviabilidade de pernas ao sol e pés descalços, de correr para apanhar pores-do-sol fúlvios e superlativos. Lá fora a natureza impacienta-se ao som do vento e da chuva, a cadência das pingueiras é o silêncio desta manhã de outono precoce. A seu tempo chegarão marmelos e diospiros, castanhas e cachecóis, a relva ficará mais verde, as gatas enrolar-se-ão em sonos longos e beatíficos e eu voltarei a invejá-las na liberdade e nos caprichos. Há-de haver lareira e um copo de tinto no remanso de afazeres arrumados, eu na minha ostra fechada ao mundo, perfumada de preticor e maresias. Troveja agora. Somos a sucessão dos dias que escolhemos e a soma de estações passadas. Sou outono hoje.
12 Sept 2020
Silêncios e ausências
Diz-se que não há nada mais certo do que o fim da linha, e que a morte faz parte da vida. Se assim fosse aceitá-la-íamos com serenidade e a ingenuidade de que nos fazemos estrelas, e que um dia nos encontraremos lá nesse poético inexistente local etério. Arranjamos panaceias para a ausência que nos esmaga e corrói por dentro, não sofreu, chegou a sua hora ou não sofre mais. E nestes momentos de terrível solidão, a morte traz-nos sempre solidão, somos nós sozinhos a braços com o vazio óbvio de estar e já não estar, como dizia Saramago, encontramos conforto mesmo momentâneo de quem nos acompanha e está, a dicotomia ausência/presença num talvez paradoxo vida e morte. Presença na ausência e vida na morte. As palavras confortam, um telefonema, uma mensagem relembram que alguém se lembrou de nós mas não há nada que substitua um abraço e a presença física. Perduram sempre. Sinto ainda os abraços e a presença de quem me acompanhou na partida do meu pai, de quem me disse 'estou aqui' em momentos de escuridão. Este malfadado ano de 2020 levou as mães de amigos meus. Primeiro o telefonema em lágrimas, as minhas também, depois o meu telefonema para substituir o abraço, e hoje mais uma vez, abraços pelo telefone, não sei bem como se faz, dizem-se coisas desajeitadas, soltam-se palavras desengonçadas, quando nos apetece ir ter com os amigos e estar lá, estar presente, dar um abraço, dois, chorarmos juntos se chorar nos apetecer ou apenas estar e partilhar silêncios. Não fiz nada disso. Fiquei quieta em casa, a tentar que o meu abraço chegasse na distância, e só há tristeza, e uma enorme impotência. Há quem ache que o Covid é uma oportunidade de balelas alternativas de crescimento e mudança, do universo a rejenerar-se e a natureza armada em Greta a dar-nos uma reprimenda punitiva pelo desleixo e incúria. Só lhe encontro solidão, tristeza, miséria e dispenso as lições de moral. Deve-me todos os momentos em que não pude estar presente e abraçar os meus amigos, e isso não é crescimento nem oportunidade. É uma imensa devastação. Um dia dar-lhes-ei estes abraços, sei, chegarão sempre tarde, não obstante.
9 Sept 2020
Não sei muito bem se isto que tenho é sono ou o dia a escorrer-se-me corpo abaixo como a toalha estendida ao vento, as almofadas açoitadas, mantas a largar gotas que marcam um compasso. Assim o dia. A noite segue descendente sobre e sob o corpo abandonado sem pudor ou recato. Coxas e pernas sofá afora, pedaços a fugir às amarras. Talvez seja só sono, ou cansaço. Há grilos insistentes, um cão a ladrar longe de fala estridente e eu a sentir o dia partir. Se calhar tenho outras coisas, silêncios instalados que me trazem calada ou maresias íntimas recolhidas como a mulher recolhia vontades e amanhã não comerei pão no jejum pudico de não adentrar outros. Estico as pernas e contemplo as unhas pintadas de vermelho-framboesa, alinhadas com as das mãos, e as pernas beijadas pelo zénite, tudo efémero e insignificante. Podiam ficar assim sempre, sou mais feliz amada pelo sol mas o outono trará recolhimento e pudores, e já não apanharei maresias. Que interessa o meu vermelho-framboesa, o cansaço e o dia a deslizar-se-me? Tanto quanto o cão de ladrar estridente, os pudores de outono, as pernas beijadas pelo zénite temperadas de maresia ou estas palavras. Coisa nenhuma.
15 Aug 2020
Quanto
Às vezes pergunto-me quanto tempo. Quanto tempo levamos a ser nós, em quanto tempo se cura um amor falhado, quanto tempo durará até que as estações se tornem unas, e possamos admirar outono, inverno, primavera e verão com igual encanto. Leva tempo. Quanto tempo nos falta ainda. Que tempo temos de sobra para dizer tudo, amar tudo. Quanto tempo nos sobeja para beber a vida de champagne sablé, abrir a boca em taça e sorver o suco das ostras cruas do salgadiço e maresia de nortadas pretéritas e futuras de que sou feita. Quanto tempo? Quanto tempo leva a aprender o silêncio e a saboreá-lo como um pêssego maduro a quem pomos os lábios rotundos, lúbricos. Quanto tempo precisamos para dizer não quero, não vou, não faço. Quanto tempo é preciso para dizer quero, reflexo também. Quanto tempo ainda para oxímoros, aliterações e eufemismos, e palavras.
São dezassete e dezasseis e o vizinho não sabe quanto tempo ainda. Quanto tempo vai agredir os meus ouvidos com uma rebarbadora ou uma serra elétrica ou uma aparafusadora, pode muito bem ser que de bricolage só sei ver a horizontalidade perfeita, nem um milímetro a mais ou a menos, quase como a intuição precisa que nem a balança de pratos na mercearia morta na rua da minha mãe, e eu criança. Talvez seja isso que ele procura a um sábado à tarde enquanto tento bronzear as pernas, apaziguar-me de tudo, e abocanhar o silêncio. Não sei quanto tempo. Não se sabe ainda.
Calou-se. Alguém varre agora os despojos em ritmo cadente. Não se sabe quanto tempo.
7 Aug 2020
Intermitências do sono
Pudesse eu lembrar-me como te reencontrei e talvez soubesse de abraços longos e envolventes ou beijos furtivos que se tornaram longos e quentes como a brisa nocturna de verões cálidos. E presentes. Não sei quantos anos de ausência. Dez, quinze, sempre. O epitáfio que quase te escrevi, o anúncio aflito à tua procura, e as partilhas que hoje nada há além de likes e partilhas. Nao estavas nem eras. Fosse eu outra coisa que não eu, e pouco me interessaria porque voltaste. Se calhar, o jeito doce de te chamar, vem, meu amor, vem agora, a mulher convenientemente submissa, astuta e matreira para atrair o objecto desejado, ou o ímpeto de te sacudir nas horas impróprias, és feito de incógnitas e surpresas. Tantas que voltaste sem mais. E agora, neste mesmo momento em que arrumo o dia e solto o corpo estás perto e somos um até as palavras me faltarem e restará o silêncio e nós. Fica comigo. Preciso-te, meu sono adorado. Tanto.