De tanto escrever palavras vãs
tenho medo que me faltem palavras para o essencial. E se tiver vindo equipada
de origem com um número finito de palavras, toma, são estas, atadas com o indelével cordão dos momentos
felizes e impetuosos, e a fragilidade do sopro hostil? E se depois de as
esbanjar em verborreias inúteis me faltarem? E se após as plasmar em papéis
estéreis de tantos reis que se passeiam nus me não sobejar nenhuma, uma só que
seja, para me afirmar, amar, ser? E se depois.
27 Nov 2018
1 Sept 2018
Postal de férias
Meu querido Oeste,
Escrevo-te um último
#postal_de_férias deste pedaço de areia com o mar em frente para te agradecer o
verão. É agosto, dia último, e este ano deixaste-me amar-te, sabes bem como é
difícil, sabes bem, meu amante de sempre.
Neste pedaço de areia
passa uma brisa suave. É fim de verão, a maré está a subir e em breve terei de
mover-me uns passos mais acima, de toalha atrás, posso até distrair-me e
chamares-me suavemente com uns salpicos nos pés ou acordar-me sem cerimónia e
fugirei agarrando atabalhoada chinelos e toalha. És assim, de furores, de
apetites, de caprichos. Subirei uns passos, dizia, até me expulsares em
definitivo da praia. Não vale a pena teimar contigo, és impetuoso, soberano,
irado, e eu, como sempre fiz, e talvez farei, resta-me obedecer-te, que
remédio, sucumbir a essa tua força. Podes gabar-te, se quiseres, és o único, o
único que me mantem obediente e quase submissa, fosses tu homem, meu Oeste,
misto de deuses e demónios, e ter-te-ia voltado as costas, altiva e irritada,
onde já se viu? Mas não, és outra coisa qualquer que me viu menina, fez mulher,
é de ti que também sou feita, desses aromas, perfumes de mar com que me seduzes
às vezes e que inspiro como se me insuflasse vida, esse salgadiço que trago no
corpo desde criança e me entesa o cabelo, é o mesmo, sempre o mesmo, esses
raios de sol de verão e de outono, ele virá a seu tempo, que me penetram a
alma, e me beijam o corpo.
A maré subiu
entretanto, não terei muito tempo já, e tenho pois de cumprir ao que venho
neste singelo postal. Foi um verão bonito, comigo estendida ao sol nesta praia,
como noutros tempos, sem preocupações, lânguida e feliz, foste tu, meu querido
Oeste. Talvez pudesses ser sempre assim. Talvez não. Não devemos mudar a
natureza das coisas. Esta é a tua.
31 Aug 2018
paradoxalmente
Há algo de paradoxalmente belo na decadência, ia começar assim, burilei a frase na praia enquanto deixava o manto da decadência do verão cair sobre mim em porções gentis. O sol deixa de estar tão forte, a brisa é diferente. o mar é outro, menos condescente, e o aroma indicia a mudança para um tempo menos estridente, mais suave, mais tranquilo, mais recolhido, mais belo talvez. E depois há as cidades. Veneza e Havana são duas cidades decadentes, e tão belas as duas, uma dignidade teimosa que as faz permanecer altivas, incólumes, como se o ser decadente fosse mais intenso do que o seu tempo de fulgor absoluto. Como as pessoas talvez. Já não sei muito bem o que ia dizer, a frase burilei-a, trouxe-a para casa com os grãos de areia que se esconderam no meu corpo, quando fui tomar duche sacudi-os e com eles a frase. Agora não sei muito bem o que fazer com ela. Há algo de belo na decadência, dizia. O paradoxalmente dilui-se na água do banho. Há algo de belo na decadência.
8 Aug 2018
gata como elas
'Não faço nada deste cabelo'
pensei num daqueles dias de canícula endiabrada e 'não fazer nada' é não fazer
nada mesmo, um caos de caracóis, uma Medusa indomável. Há mais duas situações
da minha vida que me fazem sentir o mesmo: o clima aqui neste pedaço de Oeste,
e os gatos. Nenhum deles é controlável. Aprender a lidar com a
imprevisibilidade e instabilidade é uma grande escola de vida, e acredito que
faz de mim o que sou. Os gatos, por exemplo, não nos amam incondicionalmente de
início, nem sei se nos amam incondicionalmente mas é um amor escolhido, vivido,
vindo das suas profundezas misteriosas. Quero-te e quero-te agora, pensam de
vez em quando, preciso de ti agora, ama-me já. Saltam-nos para o colo e pedem e
dão amor, aninham-se em nós, amam-nos de forma única, dão marradinhas,
ronronam-nos. Não fazem favores a ninguém, se não querem ser incomodados,
mostram-no de forma assertiva, se insistimos, problema nosso, fomos avisados.
São profundamente livres, vivem à margem de qualquer julgamento ou crítica, imponentes
na sua vontade suprema, prendem-se em silêncios profundos, sornas invejáveis e
são belos, graciosos e sedutores.
Cada vez mais tenho a certeza de
que de tanto lidar com gatos me tornei um pouco como eles, ronrono de vez em
quando, mostro as garras se se aproximarem de mais e a minha grande pena é não
ter sornas tão grandes, não ser irremediavelmente bela e sedutora, e não bufar
a quem me chateia, ou desviar-me e ir sentar-me noutro lugar. Sabem os deuses
quanto e como me apetece. Como a Julieta nessa fotografia aí em baixo. Tenho de
praticar mais.
3 Jul 2018
A minha escrita voltou. Sei que
voltou porque há pouco enquanto me esticava nas sandálias prateadas para
alcançar uma caixa de chocolates negros na última prateleira do supermercado,
ela agarrou-se por trás pela cintura no vestido cinzento. O toque subtil na
cintura de uma mulher esticada, a braços com a sua pequenez mas na senda de
alcançar algo mais alto, não é nunca indelével. Apanhou-me de surpresa claro.
Ainda a sacudi, desejei-a muito, é certo, ali não era momento de escrita,
porém, um toque mais violento ou desajeitado e poderia desequilibrar-me e lá se
ia tudo de novo. A escrita vive de equilíbrios instáveis, mas equilíbrios. Como
todas as vontades é teimosa, voluntariosa e não se ficou. Perseguiu-me até à
caixa, esgueirou-se e sorrateira acomodou-se no carrinho, entre os alperces e o
rosé que estava a bom preço e uma mulher gosta de bebidas rosadas. Anda por aí
à solta, cansou-se do rosé e está muito calor no carro. Querida, escrita, minha
deseja e amada escrita, esperas um bocadinho?
O meu dia começa como acaba: sem
lentes e sem óculos. Sou míope, nos dias que correm presbíope, deve existir, se
não existir acabei de lhe dar existência, quando estou com óculos para a
miopia. Podia dizer que tudo ataca uma mulher com a idade. Olhar-me-iam com
piedade, teceriam uns comentários e eu abanaria a cauda feliz, não se sabe se
evocaria o meu vestido vermelho, por esta hora objecto mítico ou místico, mas
não é verdade. A única coisa que ataca uma mulher com a idade é a gravidade,
tudo o resto é mito, ou quase, como o vestido. Não digam, não abano a cauda e
volto ao motivo inicial desta escritura: os olhos, ver, ausência de visão num
sentido amplo e lato, um mal que ataca o mundo, e que continua a inquietar-me.
Neste preciso momento, o meu dia já começou e estou sem óculos. Olho para o
relógio e o tempo, esse que nos aguarda sempre implacável, urge e espera-me.
Penso 'bem, está na altura de ver o mundo com outros olhos'. Parece-me uma boa
decisão para o dia de hoje: ver o mundo com outros olhos. Vou pôr as lentes.
1 Jul 2018
Uma mulher acorda de manhã e pensa,
não pensa logo, esta que vos escreve é completamente inútil, um ser à deriva no
mundo, perdida nos braços de Morfeu, quando o despertador toca, mas para o
efeito e para este post correr bem, partamos do princípio que acorda, dizia eu,
e pensa. Olha o tempo lá fora, vê sol, outro engano, e decide feliz da vida
'vou vestir um vestido vermelho'. É razão suficiente para felicidade, bom tempo
e um vestido vermelho no mesmo post. Toma duche, hidrata-se, deixa o vestido
vermelho percorrê-la num abraço breve, perfuma-se, e desce para o mundo, já de
vestido vermelho, sandálias por certo. altas com toda a certeza. Há sol e bom
tempo, vê a tarja de mar pela janela da cozinha enquanto prepara o
pequeno-almoço e minutos depois está pronta para enfrentar o universo que lhe
parece, aos primeiros passos decididos, um lugar sorridente e recomendável,
vá-se lá entender o poder terapêutico de algumas peças de roupa e do mar lá
longe, esse será mais fácil de entender.
Isto tudo é muito certo, o
problema principal é que nem tudo se resume a vestidos, vermelhos ou de outra
cor, sol e calor também não temos, mas temos um evento à nossa espera. Coisa do
demo, gente velha e muito velha, queiram os deuses do metal que o vetusto ser
não sucumba hoje, já me chegou o Axl Rose sentado que nem o Jabba the Hutt, e
para o qual me pergunto a pergunta de sempre das mulheres aflitas, não me lixem
agora com igualdade de género: O QUE É QUE EU VOU VESTIR?
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