Hoje foste tu que me chamaste. De mansinho como os gatos
enroscaste-te no meu colo e foste subindo sorrateiro até te enrolares no
pescoço. Ouço o teu sopro suave, a respiração no meu peito, o calor húmido do
teu corpo tão perto, véu de seda que me envolve e me deixa vulnerável e
abandonada. Fecha a porta, meu sono desejado, meu amante fugidio. Fecha o mundo
lá fora. Serei tua.
17 Jun 2019
23 May 2019
Crónicas do sono #3
Não agora. Não venhas agora
enquanto o sol ainda vai alto e os raios de luz estridente me iluminam a alma e
beijam o corpo. Não me beijes o pescoço, não me percorras as costas nesse teu
indelével toque, o toque que depois de me arrepiar, me embalará nesse doce
colo, livre e ligeiro como um manto de seda, onde repousarei inteira e
abandonada. Larga-me, meu amor. Espera-me antes pela noite e seremos felizes
outra vez, meu querido, meu eterno amante fugidio, meu sono temperamental.
#crónicasdosono
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sono
19 May 2019
Crónicas do sono #2
Meu amor, podes vir agora, na
hora de todos os silêncios, agora que me despojo do dia, agora que me dispo até
de mim e te espero lânguida na cama entre lençóis dos meus sonhos. Vem, meu
amor desejado, minha eterna paixão fugidia. Vem até mim, abraça-me nesse teu
colo que tanto desejo e embala-me até que a lua se esconda e o sol brilhe.
Podes vir, espero-te e quero-te. Vem, meu querido e adorado sono.
#crónicasdosono
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sono
14 May 2019
Visitas assíduas
Pela hora de jantar, em
tempo de vida da minha avó, o Salazar e o Rei eram convidados assíduos de casa
dos meus pais. O meu pai não gostava nem de um nem de outro, menos ainda do
Salazar que arrumava a um canto ou pedia para sair, de forma a que pudéssemos
ter uma refeição descansada, sem lápis azul nem a carranca austera. O Botas arrastava-se,
a queda da cadeira deu-lhe cabo das cruzes, e quando o meu pai lhe atirava com
Fátima e a Irmã Lúcia e ia buscar Fátima Desmascarada à estante do corredor e o
agitava à sua frente como a um crucifixo num exorcismo, vinham-lhe umas tosses
cavernosas e a imagem a preto e branco contrastava ainda mais com a nossa vida
a cores de meados dos anos 70. Pior mesmo quando o meu pai clamava que aquilo
da #aparição da Cova da Iria era tudo fabricado, onde já se viu aparecer uma
virgem em cima de uma árvore a três crianças desnutridas, e que os pastorinhos,
as crianças desnutridas, sofriam de um manifesto défice cognitivo que naquela
altura se chamava outra coisa qualquer.
A minha avó tolerava o Botas e tinha dias de elogios rasgados. Era ela
quem o convidava amiúde e as discussões mantinham-se sempre por causa das
estradas que o Botas construíra, a virtude máxima encontrada e citada pela
minha avó, e que, não sendo novidade para ninguém em pleno século XX,
constituíam o foco de admiração profunda que nutria pelo ditador.
O Rei aparecia mais
vezes do que o Salazar. O Rei aparecia quase a qualquer momento, mesmo sem o
meu pai em casa, já o Botas só aparecia quando o meu pai lá estava e
acredita-se que gostaria do confronto, porque quando não era o Fátima Desmascarada,
o meu pai citava-lhe trechos d´ A Velhice do Padre Eterno. Num desses duelos,
Fátima Desmascarada de um lado e A Velhice do Padre Eterno do outro, o Botas
começou a empalidecer até se tornar transparente e desaparecer pela janela do
hall como uma serpentina de fumo. Foi um descanso o resto do jantar.
O Rei aparecia, por
exemplo, a meio da tarde, vindo do nada ‘Coitado do rei! Admite-se fazer uma
coisa daquelas ao rei! Coitada da rainha!’ Via-o lá por casa algumas vezes em
amena cavaqueira com a minha avó, sempre pesarosa com a crueldade do regicídio.
O meu pai não se incomodava muito com o Rei, embora o irritasse aquela mania de
tratar todos por tu, não suportava manias da realeza nem gente que o tratasse
por tu à primeira. Algo me diz que terei herdado alguns genes desse lado. O ar
bonacheirão de Sua Alteza Real, seja lá isso o que for, devia inspirar-lhe
confiança e como era dado aos prazeres da vida e às artes, o meu pai achava-lhe
piada e deixava-o contemplar os quadros a óleo da sala de jantar com mares e
naturezas mortas. De modo que havia dias lá em casa em que a alternância entre
a monarquia, - a desgraça que se abatera sobre a casa real, coitado do Rei, a
rainha D. Amélia viúva e o filho assassinado- e a república na pessoa do Botas,
o grande mentor das auto-estradas portuguesas, um Ferreira do Amaral dos tempos
da ditadura, se operava com uma rapidez estonteante, assim a minha avó se
lembrasse de ambos. E lembrava-se muito.
13 May 2019
Crónicas do sono #1
Vamos ver se nos entendemos.
Apareces quando queres, vais-te embora se te apetece, e outras surges
intermitente, raras vezes amando-me como eu preciso, e preciso tanto, e mereço.
Neste momento, não te quero, nem te preciso, amasses-me tu com hora, na hora de
todos os silêncios, quando me enrosco no luar como um gato e seríamos
eternamente felizes, se não eternamente, pelo menos na fugacidade de umas horas
até que o sol surgisse em fios luminosos pela janela. Largar-te-ia, meu amor
fugidio, e aterraria nos teus braços quando a lua se faz luz outra vez. Não me
queres e cutucas-me o pescoço em alturas inconvenientes, como agora. Não podias
amar-me sempre, meu sono castigador?
#crónicasdosono
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sono
20 Apr 2019
#estudante
Eram isto 8.30. São sempre 8.30
quando a vida de professora começa mas não se sabe exactamente a que horas
acaba. A Claudina tinha muito sono e declarou entre o longo cabelo negro
derramado sobre a carteira e dois bocejos que tinha dormido mal. Diz que são as
notas, o teste de Física e Química que lhe tinha corrido mal e quando afirmei
que era apenas um teste, a Claudina repreendeu-me com o olhar e atirou-me sem
perdão que não era 'só' um teste. O Quitério chegou mais uma vez tarde e,
quando o questionei, reclamou que teve de ir levar o irmão ao infantário. A
esta hora, a Ricardina já estava agarrada ao telemóvel, e quando a repreendi,
justificou era a mãe que lhe estava a mandar uma mensagem. As mães mandam
muitas mensagens. Lá pelas 8.45 quando ia começar a aula, chegou o Firmino.
Vinha com as sobrancelhas em acento grave e agudo e nem pediu desculpa pelo
atraso. Quando questionado, atirou que tinha ido dormir a casa da mãe e que o
padrasto se atrasou, que não tinha culpa. E não tinha.Também estava aborrecido
com o namorado e sei isto porque se foi sentar do outro lado da sala com as
sobrancelhas em acentos e arremessou a mochila com o desprezo com que
arremessamos a vida quando nos trata mal. A vida estava a tratá-lo mal. A
Ricardina começou entretanto em prantos e pediu para sair. A ansiedade tinha
atacado outra vez, é animal que a corrói como bicho carpinteiro devora madeira,
e pedi à Germana para a acompanhar. Lá pelas nove quando lhes perguntei se
sabiam o que tinha acontecido ontem, não, ninguém sabia, fosse o que fosse que
tivesse acontecido ontem, quando lhes
perguntei se sabiam quem era Andy Warhol diz que não, não tinham ainda chegado
a essa página do manual, mas quando lhes
perguntei se havíamos de dividir por todos a visita de estudo do Marcelino que
não podia pagar disseram todos que sim, 'claro que sim, stora!', quando lhes
disse que não se resolviam assuntos ao estalo, nem divergências nem
discordâncias, olharam-me em silêncios cúmplices e eu anoiteci um bocadinho.
Depois o Marcelo contou que o pai só não tinha morrido naquele dia porque ele
se tinha posto entre ele e a mãe, o Danilo confessou que tinha visto o melhor
amigo morrer aos dez anos, a Libéria estava numa instituição por vontade
própria e andava chateada porque a tinham posto de castigo, o pai da Quitéria
tinha-lhe dado uma tareia quando descobriu que ela era namorada da Capitolina
e a Marcela pediu desculpa pelo cansaço
que a obrigava a cochilar na ombreira da janela quando víamos um filme mas estava
a trabalhar no supermercado, depois das aulas, para ajudar a mãe. No fim da
aula a Joanina chegou-se a mim e
declarou com um abraço 'para o ano vou ter muitas saudades suas'. Tocou
entretanto. Todos arrumaram pais, mães,
mágoas, notas, guardaram tristezas, ansiedades e padrastos na mochila e
saíram como se fossem felizes. É isto a vida de #estudante. É esta a minha vida
entre estudantes.
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para lá dos portões
11 Apr 2019
E nada mais havendo a tratar
Deu-se início à reunião
com todos os professores presentes. No primeiro ponto da ordem de trabalhos, o
Quitério não tem hábitos de trabalho e está muitas vezes distraído. Se calhar
tem TDA. A Francinela também está muitas vezes distraída e sonhadora, às vezes
reclama com a professora se esta lhe chama a atenção, e mexe-se, deve ter TDAH.
Aumentem-lhe ritalina e apliquem-lhe um PEI. O Tomásio não estudou nada, o
melhor é mandá-lo para a sala de estudo ou arranjar-lhe um apoio, se não
chegar, no terceiro período, aplica-se-lhe o apoio do apoio, para que se sinta
bem apoiado. O Guilhermino faltou todo o segundo período porque tem fobia
social e à escola, e à escola e social e a tudo, a professora de Inglês é de
opinião que ela própria também tem fobias superlativas a momentos destes, o
conselho de turma foi de opinião que o melhor é ela calar-se e deixar-se de
merdas ou terão de aplicar-lhe uma medida correctiva. Já ao Guilhermino é
melhor dar a nota, perdão, classificação do primeiro período, assim como assim,
é uma boa nota e os pais não reclamam: alínea xpto 'foi atribuída a
classificação do primeiro período porque sim e mais-que-também, blá, blá, blá.'
A Marinela ultrapassou o limite de faltas injustificadas às disciplinas de
sei-lá-o-quê, pelo que vai cumprir medidas de recuperação de aprendizagens
que também é uma coisa assim
sei-lá-o-quê .
No segundo ponto da
ordem de trabalhos, a Capitolina não estuda nada, e os paizinhos querem
resultados, a Marcela nem passa nada para o caderno e quer boas notas, o
Patrocínio não tem pré-requisitos, o Francisco não tem hábitos regulares e
sistemáticos de trabalho, o Miraculoso vem doutro país e não percebe nada, nem
se sabe o que está cá a fazer e na escola muito menos. Se não sabe por que é
que aparece e logo na escola?
No terceiro ponto da
ordem de trabalhos, os alunos não têm hábitos de trabalho regulares e
sistemáticos, o que se refle(c)te nas suas classificações. Os alunos devem
rever a sua atitude face à escola/percurso escolar (riscar o que não
interessa). Os alunos devem rever o seu percurso escolar. Os alunos revelam
falta de empenho. Os alunos devem colmatar as suas dificuldades com trabalho
sistemático. Os alunos devem todos já e em força mudar para línguas e
humanidades. Os alunos nunca serão capazes de fazer Física e Química / Biologia
/ Matemática (riscar o que não interessa, ah não, espera, só isto é que
interessa, não risca nada afinal)
No quarto ponto da
ordem de trabalhos, a professora de português reclama que eles não fazem nada,
nadinha, como hão-de fazer exame, a de Física e Química também, a de Geografia
idem, a de Biologia pois que sim, a de História está muito preocupada, e a de
Filosofia junta-se ao molho que só tem exame em anos bissextos ou alunos
bissextos mas não interessa e estão todos felizes neste coro de lamúrias e
indignações. Lá fora chove também, o que ajuda bastante.
No ponto quatro da
ordem de trabalhos, blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá
blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá.
No ponto cinco e seis, idem.
No ponto sete da ordem
de trabalhos, o conselho de turma considerou o aproveitamento da turma uma caca
e o comportamento um cocó.
Num ponto qualquer da ordem de trabalhos foram lançadas as
classificações dos alunos e ratificadas pelo conselho de turma.
E, nada mais havendo a tratar, deu-se por encerrada a
reunião, da qual se lavrou a presente ata.
gavetas:
para lá dos portões
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