26 Jun 2020

Flamingos

Acordo ainda sem o despertador tocar, abro a janela e a portada e cheiro a manhã, o azevinho tem gotas de orvalho e há pássaros felizes, se calhar são rouxinóis ou cotovias, que sei eu de pássaros e de tudo neste quase verão e nisto, que nome terá isto? O último dia de aulas chegou e apenas e só por uma questão de autodefesa e sanidade mental tenho uma leveza e um alívio em mim que decido pôr o vestido de flamingos. Deslizará sobre o meu corpo mais tarde. E saltos. Preciso de umas sandálias altas, perfume e quase podia pôr um anel. Não ainda. Quase esqueço que não levei a Luzinha ao Hard Rock, que não fomos à Quinta do Mocho, nem ao MAAT nem ao Museu Berardo, nem a Dublin, e que tudo se transformou em quadrículas com nome de gente. Que não posso corresponder à Catarina 'tenho tantas saudades suas e dos seus abracinhos'. Que caso a Marina precise de mim para chorar não estarei lá e chorar sozinho é cruel e frio em qualquer idade. Que lhes falhei um bocadinho e lhes faltei. O Joel também nunca mais descansou o rabo de cavalo nos seios rotundos da Belmira e nunca mais ninguém reclamou das rãs e de um pouco de tudo e de nada. O despertador toca. Este podia ser um dia bonito. Vou vestir o vestido de flamingos.

19 May 2020

em linha recta

Eram quatro e estavam sentados em linha recta, da janela até à porta. Não se mexeram e estiveram com a paciência dos conformados, a deixar o tempo denso a escorrer horas abaixo, sem entusiasmo nem alegria. Ali estavam desde as dez da manhã, não há intervalos nem pausas. Não foi bom ver os meus alunos. Imóveis e de máscara, poupem-me ao lugar-comum de que os olhos são o espelho da alma e que assim se realçam os olhos, aceitámos o infortúnio de regressar a um local onde outrora houve vida. Depois perguntei como tinha sido o primeiro dia e responderam-me 'sem vontade de voltar para o segundo'. A Mara não mexeu no telemóvel, o Ricardo tão longe e recolhido naquele objecto abjecto que mal o senti, a Lina ficou quieta, depois de comer um snack de um tupperware e recolocar a máscara, e a Marta esteve hirta e atenta. Lá fora os nenúfares estavam proscritos com uma fita delimitadora, o caminho ladeado por baias, que ninguém ouse pôr o pé além. Saíram à hora e eu fiquei a pensar que aquilo agradaria certamente a muitos: alunos perfilados, caminho indicado, actividades mortas, a felicidade de ninguém roubar aulas a ninguém, toda a gente sabe que tudo o resto é ruído e só as aulas trazem a luz ao mundo, e de não me atormentarem o sono com alíneas e directrizes estúpidas. Entrar ordeiramente pelo caminho prescrito, despejar 'matéria' e sair. O céu para uns. O inferno para outros. Pobre escola, o que te estão a fazer.

14 May 2020

E@D

Acabei há pouco de dar a última aula online à minha turma de Alemão. Dos onze alunos não há um único que vá às aulas presenciais a começar na próxima segunda-feira, o que quer dizer duas coisas, ou mais, mas fiquemo-nos por aqui: como com o regime de aulas presenciais acaba o EaD, estes alunos deixam de ter aulas, sem mais, que ninguém se convença que mandar tarefas para trabalho individual é o mesmo do que estar com eles e trabalharmos em conjunto, se não fosse por mais, saber se estão bem e saber deles já era o suficiente; irei à escola três vezes por semana e esperarei obediente dentro da sala de aula por alunos que não vêm. Se isto não é um contra-senso não sei o que é, mas sei bem o nó na garganta e a sensação de os ter abandonado ao seu destino. É isto a escola?

12 May 2020

Papá

Por esta hora já terias refilado contra a insistência nas comemorações do 25 de abril, nas do primeiro de maio na rua, e talvez do Avante, que ideia peregrina, dirias, mas poderias muito bem ter feito o contrário. Eras mestre no espírito de contradição que me levava ao limite tantas vezes. Terias refilado bastante. Isso sei. Já de Fátima dirias o previsível, tu e Fátima numa só frase pouco tinham de católico, muito menos de cordato e herdei de ti a total ausência de fé mariana. Hoje, num dia sem pandemia, ou apesar dela, terias entrado tão feliz cá em casa como sempre fizeste, nunca te vi aborrecido aqui. Terias admirado o azevinho, e a glicínia que se reverbera em exuberantes humores lilazes, em cascata sobre a pérgula. Depois entravas na casa perfumada com o leite-creme acabado de queimar e na nossa eucaristia brindaríamos com um Dão encorpado, o mesmo que procuro quando estou à lareira no inverno, comigo em mim, e te procuro e celebro com o crepitar da lenha, o aroma apaziguante do madeiro, a infância que recriamos feliz quando ninguém era morto, e havia farturas na feira e míscaros no outono. Hoje é o teu dia. Sem leite-creme nem Dão. Não me chamaste filhota nem Nocas. O azevinho continua enorme, e vi o primeiro pirilampo quando fui respirar noite. Parabéns, Papá. Da tua filhota.

30 Apr 2020

it's all sad goodbyes


O Ramiro chegou atrasado. Rimos todos muito porque o Ramiro chegava sempre atrasado e agora também, e houve quem lhe tivesse perguntado se o autocarro tinha chegado tarde. Que parvoíce. Como quando lhes disse que me tinha perfumado e a Catarina reclamou, ó stora, mas nós não conseguimos cheirar! Não, Catarina, claro que não. O Vitório não conseguia entrar porque a língua da app era árabe e ele não entendia, e reclamou a aula toda até a Luzinha o ter ajudado. O Rogério deixou crescer o bigode, o Jaime rapou o cabelo, o Manuel deixou o cão na cadeira quando se ausentou por segundos, e continuou sendo ele, como o atraso do Ramiro, a constatação da Catarina, e a desolação de dias prolongados de nós e só nós. A Mara mostra sempre o sorriso doce, a Matilde é sempre a primeira a chegar como a Mara, e ao contrário do Ramiro. Olho para a relva que brilha do lado de lá da porta, enquanto a Marinela e a Francisca partilham a sua música preferida, o éter se rende à voz rouca de James Brown, e as 26 quadrículas se calam, depois de alguém gritar mute the mic! Também se partilhou Bob Marley, George Michael e Whitney Houston, do outro lado disseram pelo chat que estavam a dançar, mas agora havia ruído de crianças. Falámos de filmes, a Eunice disse que os ia ver e eu adverti para a linguagem e as cenas fortes e a Carmina assentiu, sim, stora, nós sabemos, mais faladora do que o atraso do Ramiro e a observação da Catarina, sendo mais ela do que antes fora. Ficámos todos muito felizes com filmes, música e mundo, e animaram-se bastante quando disse que para a próxima aula faríamos um kahoot. Quase parecia tudo normal. Vá, miúdos, vão saindo que eu sou a última, capitã do bote que navego pelas estrelas da intuição, o Norte e o Sul de mim, a maresia que me guia. Vá, miúdos, eu sou a última. Adeus, stora. Lá fora está sol e eu tenho uma vontade estúpida de chorar. Adeus, miúdos.

8 Apr 2020

fora de portas


Se tivesse de viver de enlatados, congelados, massa e arroz, viveria, a tudo nos habituamos, e aí vem adversativa, mas não temos ainda, não tenho e como tal lá me aventurei mais uma vez fora de portas no encalço de fruta e legumes. Primeira paragem: mercearia da aldeia. Estavam a chegar brócolos, havia grelos de couve e de nabiça, agriões, salsa e coentros, espinafres, tudo à porta para apanhar a brisa dos dias, duas ou três pessoas esperavam cá fora, só entra uma pessoa de cada vez, e já tinha desaparecido a mulher do cabelo esticado que bufava a cada minuto de espera naquele dia de sol, um outro, tanta impaciência que tive vontade de lhe lançar o meu olhar soviético. Lá dentro uma mulher de cabelo todo branco e modos lentos a quem eu me arrependo de não ter perguntado se precisava de alguma coisa, em vez de começar ouvir em surdina o povo a 'deslargar' impropérios ao raio da velha que anda na rua, sim, os velhos, raios os partam FIQUEM EM CASA, crl!, depois saí com o saco transbordante de morangos a perfumar a rua e o dia, e a mercearia lá ficou no seu remanso. Segunda paragem numa grande superficie, desinfectei-me à entrada, já me tinha desinfectado quando saí da mercearia, e continuei cheia de cuidados e receios, a mulher atrás de mim na fila trazia ao colo as compras, por apurar ficará se por preguiça ou precaução, e quase juraria que estava demasiado perto, não que o visse, mas sentia a presença ameaçadora da mulher, xô, cinco centímetros para trás, vá!, sois todos prevaricadores até prova em contrário. E por fim, farmácia, estava perto, fui até a pé, graças aos deuses ninguém me mandou para casa naqueles 100 metros,e não havia varandas, já o farmacêutico bem parecido cumpriu o seu dever escrupuloso quando lhe pedi uma daquelas mistelas naturais para o sono e que ele assumiu como um perigoso preparado químico 'está habituada a tomar isto?' estava sim, senhor, acrescentei um 'infelizmente, ar de coitadinha dá sempre jeito e eu tenho tanto por usar que resolvi dispensar-lhe uma porção, e também lhe ocultei que num dia de aflição sozinha no carro à porta da farmácia emborquei cinco balas de valeriana para conter infelicidades teimosas que ainda se riram de mim e continuaram ufanas como cauda de gato persa no ar. Meti-me no carro, deixei as compras à minha mãe, por dar ficaram todos os abraços e beijos à minha pequenita, e eu debaixo do fogo aberto dos pides de varanda  consegui chegar a casa. Sã e salva.Ufa.

2 Apr 2020

Do fim dos dias


Lá fora a hera parece crescer, as hostênsias têm folhas verdes brilhantes, e os limoeiros estão prenhes de pontos amarelos que antevejo e quase sinto rugosos nas minhas mãos ásperas. Quase e parecer. Incertezas e incógnitas. A casa está quieta, janelas fechadas, a porta verde da garagem fechada por onde um dia vi entrar o padre de paramentos e alguém me avisou 'olha, está alguém para bater a bota naquela casa' tanta pompa só podia ser extrema-unção, e nós, indiferentes ao calendário lá fora, só o mesmo senhor desde há dois milénios anos tinha morrido, e desta vez morrera outra vez. Tira o primeiro e põe uma vírgula, ouço, a Ruiva espreita pela janela, o perfume do chá espalha a sensação fictícia de calma. Envia para o emai, ouço outra vez, ou esmai, sei lá eu destes acrónimos e da vida, vou-te mandar, alguém diz, a hera brilha agora com o sol que vai baixando. A casa continua quieta e ouço o suspiro de alguém que se esqueceu de desligar o microfone. O Franciscano é antes do Riacrdino. Juntas pargrafos. 8388, falta o p, ‘pera aí. Isto fui eu que escrevi, alguém discorda e discutem-se palavras no limiar do tempo. Fala-se de sentido de humor. A hera perdeu o brilho e o aroma do chá diluiu-se neste fim de tarde do fim dos tempos. Põe c e tira a vírgula. Falta um ponto final no primeiro parágafo. Prática simulada, alguém acrescenta, posso continuar, perguntam. Podemos todos continuar. O sol abriu entretanto, ressoa no cortinado alvo da esquerda, a casa amarela continua quieta de janelas e portas verdes fechadas, os limoeiros dançam ao ritmo do vento. Passa uma mulher magra deglutida na esquina da casa quieta. O sol escondeu-se outra vez e a Julieta aparece na porta. Tenho os pés frios. Dias assim agora.