Os canais e as cornijas,
as casas estreitas, quase em equilíbrio instável, os espaços verdes, a
proverbial tolerância que não se estende ao resto da Holanda, e bicicletas
omnipresentes, eis Amesterdão. Pode ser muito bela, sim, mas pode ser austera e
gélida, coberta por mantos densos de humidade pesada. A primeira vez era
Inverno, março talvez, uma visita fugaz num dia de muito frio. Da segunda vez
fazia setembro e todos os dias foram dias de muito frio. Um setembro áspero no
ano de todas as solidões antes dos setembros vindouros de céus rubros e dias
luminosos. Nesses dias longos de céu cinzento o tempo estava do meu lado. Tempo
para calcorrear a cidade. Tempo para me procurar. Tempo de ver e sentir.
Sobrou-me a espaços, eu era de mais para o tempo e o tempo para mim, guardava-o
como se o reutilizasse mais tarde, não precisava de tanto, pedaços que podia
oferecer, sobra-me este bocado, pode fazer-te falta, leva, mas o tempo não se
guarda, não se deixa guardar e pairava em mim como roupa desajustada, espaços
lassos por onde entrava a humidade de setembro cinzento dos canais. Nos meus
caminhos avistava ao longe o Nemo e o Museu Marítimo e cruzava pontes e canais
sempre acompanhada de tempo e da solidão, tive em demasia nesse ano também.
Quanto mais bela a cidade mais dolorosa a solidão e Amesterdão é bela. Levava o
tempo e a solidão a museus, monumentos, sítios, ruas na esperança de que a arte
os acalmasse e mitigasse o sentimento estranho de fim, de verão, de um tempo,
de uma vida. Num desses dias fui ao Museu Van Gogh, tão previsível como o ocaso
dos dias e lá andei, falando de mim para mim, comentando com o tempo e a
solidão. Pôs-se almoço e encontrei conforto numa sopa de #tomate com pimenta
preta no silêncio do restaurante do museu, quente, reconfortante, luminosa,
antídoto improvável na cidade que se mede por solidões.
12 Nov 2019
8 Nov 2019
Crónicas dos sono #9
Larga-me. Não te quero perto
agora. Não me beijes o pescoço com esses teus lábios lúbricos. Não me enroles
os caracóis nesse teu dedilhar sensual, essa onda quente que me baixa as
defesas, e fico submissa e lânguida, sabes bem. Não posso agora. Logo, tu sabes,
quando os mochos se alvoroçam, e a lua brilha no topo dos pinheiros, estarei
pronta para ti, o corpo nu abandonado, sem artifícios, só eu. Vem logo, meu
amor fugidio, serei tua, meu sono insondável. Não agora. Afasta-te.
gavetas:
sono
15 Oct 2019
Os bois pelos nomes
Corria o ano da graça de dois mil e dezanove, e ditava o
acaso, destino ou universo, prosaicamente apenas a minha profissão, que me
encontrasse em Frankfurt, com cinco adolescentes a meu cargo e na companhia de
um colega. Chovia a chuva miudinha que dizem ser dos tolos e por essa mesma
razão albergava sob o meu chapéu comprado na estação de comboios o mais alto
dos adolescentes, tão desbragado quanto
genuíno, com quem soltámos risadas igualmente genuínas e espontâneas. A vida de
professor tem muitas risadas e alguns disparates, e somos todos felizes assim.
Caminhávamos lado a lado na ponte
sobre o Main, almadiçoando a chuva os dois, observando los alemães no seu
habitat, e os turistas a serem turistas, quando os meus olhos pararam sobre o
stencil na parede mesmo em frente. Raio de sentido de oportunidade. Quem, mas
quem é que pôs aquilo ali naquele preciso momento? Aquele manto mais parecia
sagrado, o raio da coroa para baralhar isto tudo, e podia até ser uma nossa
senhora, mas como neste corpo mora pecado, o que via à minha frente era uma
vulva, coroada mas uma vulva, uma vulva rainha, caramba, uma mulher conhece-se.
O ser a meu lado continuava na sua vida de adolescente, vendo isto e aquilo,
reclamando da chuva, e grato pelo passeio extra, por esta altura já tinha
tomado o meu guarda-chuva azul escuro e de gatinhos de assalto, enquanto eu
rezava à santa da coroa para que tudo
passasse rápido, bastava dar uma volta e a vida retomaria a sua ordem natural,
talvez do alto do seu metro e noventa a
santa passasse despercebida ou passasse mesmo por santa, quanta ingenuidade
neste corpinho de cinco décadas, mas tal não aconteceu, sorte não é comigo.
OLHA, AQUILO É UMA VAGINA! reclamou bem alto. Não era. Estas inexatidões em
relação ao #sexo feminino é que me tiram do sério. Vulva, rapaz, era uma vulva.
gavetas:
para lá dos portões
23 Sept 2019
Corpo Silêncio Vida
Às vezes não é preciso muito. Penso
nisto enquanto estendo o corpo como uma língua, um caminho que se desenrola de
pernas e ancas, sinuoso, nada é recto como na vida, o cabelo de medusa abraçado
em cachos selvagens às almofadas e te acomodas como te abandonas num outro
corpo, ambos quentes e felizes no silêncio eloquente, primeiro. Enrolo-me no
véu de silêncio, inspiro e expiro-me, e penso que podia ser sempre assim.
Corpo. Silêncio. Vida.
24 Aug 2019
Crónicas do sono #8
Chega aqui. Mais perto. Deita-te
a meu lado e sobe-me como a maré, acaricia-me como a brisa do estio que me
entra agora pela janela enquanto me despojo do dia, da noite, de mim, um corpo
que anoitece no crepúsculo de si. A noite que se pôs lá fora embalar-nos-á,
seremos um até cantar a cotovia, e os raios de sol choverem fios dourados pela
janela. Vem agora e serei tua, meu sono desejado, meu amante inquieto.
gavetas:
sono
20 Aug 2019
Saio do carro e vou ao encontro
do mar. Está vento, uma brisa fria, o mar revolto e maré despudoradamente
vazia. Começo a caminhar com o mar pela esquerda e começo a escrever. Palavras
e frases que se juntam e fazem texto. Escrevo sempre. Escrevo muito quando
tenho o corpo entretido. Há gente com quem me vou cruzando, o perfume do mar e
a brisa que me açoita o corpo e o cabelo. O aroma dos pinheiros imiscui-se
neste encontro com o mar e comigo. Intrometido. Escrevo algo sobre a bênção de viver num sítio destes, a uma distância
de 10 minutos, com mar e céu, e azul até onde a vista alcançar, e largo
cansaços e negritudes que voam com a ventania. Depois penso em algo sobre a
perfeição, que aquele momento seria perfeito, se não houvesse carros, e que a
perfeição é enfadonha e irritante, a sua busca inimiga de Eros, e continuo.
Faz-se zénite entretanto, uma rabanada de vento forte leva-me as palavras e os
textos, ainda corri atrás deles mas a arriba era alta, o vento forte e senti
que eles precisavam de liberdade pela força com que me fugiram e o coice de um vocativo. Vi 'ses' e
'quandos' a voar, as vírgulas rodopiavam com o vento e as exclamações
despenharam-se na areia, o ponto pesa de mais para voos. Havia expressões como
'quando o mar se põe nu' e 'a inação estrangula-me as palavras', 'o vestido abraçou-me
com a volúpia dos amores impossíveis' mas fugiu tudo. Menos isto.
6 Aug 2019
Crónicas do sono #7
És tu outra vez, sorrateiro dos
infernos. Mordiscaste-me os tornozelos enquanto me derrubava nuns afazeres,
quase garantiria que me lambeste a panturrilha que trago nua neste estio
arredio. Eu sei que eras tu. Não negues. Agora que espero um outro afazer e me
abandono no sofá, fizeste-te convidado e impuseste-te. As mãos firmes na
cintura que deixaste escorregar pela ânfora das minhas ancas quando me levantei
resoluta. Sabes bem, esses humores de aparecer quando queres cansam-me,
irritam-me e às vezes apetece-me deitar-te fora quando vou ao lixo, não mereces
muito mais, ou levar-te comigo quando caminho junto ao mar e libertar-te lá do
alto, em dias menos maus, que ficasses com as gaivotas. Chato impertinente. Se
viesses à noitinha, na hora dos silêncios, podíamos ser tão felizes,
amaciar-me-ia em ti, largaria sonhos e pesadelos e em uníssono inspiraríamos a
noite e o luar, estrelas e constelações, que Vénus nos abençoasse e Júpiter nos
protegesse. Não insistas agora. Vai -te embora, sono matreiro. Vai -te, fico
com o silêncio, não contigo.
gavetas:
sono
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