18 Dec 2019

Puta que os pariu

Sem memória somos nada. Sem memória já não sou pessoa, sou uma cara que se ri à tua frente de cabelo revolto, olhos nos olhos a tentar uma entrada para isso de mim que se te foi, um entendimento, um sinal, um sorriso do lado de lá que nos conseguisse reatar um ao outro, uma centelha ínfima do momento em que desse lado eu fosse eu e tu fosses tu e pudéssemos rir de novo. Sou eu! Já não há nada. O momento em que me apanhaste a chorar na rua quando um amor se me estilhaçou e eu não sabia o que fazer com isso que me trespassava, dor, desespero, solidão, sei lá eu que nome dar à devastação que eu era, e tu vieste e me disseste 'não podes andar assim, rapariga' e me levaste a tomar um café' foi-se-te. Os impropérios que trocavamos à socapa 'puta que os pariu' seguidos de risadas e o retomar da compostura são agora um deserto, um sítio oco de onde nada brota. Se calhar também já não há lugar para o DCIAP, como lhe chamavas, nem para as sonecas breves nos intervalos dos nossos afazeres, nem sequer para quando me dizias 'hoje é o dia em que gosto de te ver pelas costas' quando eu usava aquela saia preta comprida com uma racha vertiginosa, há umas décadas quando éramos todos, jovens, inteiros. Se calhar aquele cartão de São Valentim, que ironia, meus deuses, que as miúdas te fizeram e mandaram, cheio de corações rosa, e que tu meteste na cabeça que havia sido eu também já não é coisa nenhuma. Nem a espuma dos dias. Agora sou só uma cara a sorrir à tua frente. Sou eu, penso dizer-te, mas não digo, o que os olhos não reconhecem as palavras não recuperam. Os deuses não te podiam fazer isto. Puta que os pariu.

11 Dec 2019

Foi naquela altura, no momento exacto antes da Natércia perguntar 'deutschland é um país?' que vieste sorrateiro. Senti-te e ainda te enxotei. Que tempo é este em que me apareces, logo agora que o Firmino, o Quitério, a Natércia, o Libório e o Francelino tinham perguntado todos ao mesmo tempo e depois cada um a seu tempo se os números eram para escrever por extenso, e a Vitalina exausta ter exclamado 'a stora já respondeu isso umas cinco vezes'? Depois o Antonino mostrou-se concentrado, exibiu o teste e proclamou 'ó, fiz tudo! Tudo. Só não sei escrever os números...' A Vitalina revirou os olhos e repetiu 'a setora já disse cinco vezes que não era para escrever'. O Firmino mostrou-se surpreendido e questionou o Antonino 'estudaste?' 'Estudei. Na aula de Economia. E rendeu' esclareceu ufano e sorridente. A Economia havia de ter alguma utilidade, eu sabia. Por esta altura já te sentia mais longe, havia demasiado à minha frente para te poder dar atenção, até porque o Ricardino lutava com o diálogo, não sabia dizer 'e tu?' e exclamou 'xi, se eu tivesse este diálogo com a gaja' e riu-se, rimo-nos todos, até a compostura de uma professora sofre abalos, e sofre de vez em quando como daquela vez em que perante a a assertividade em cumprir uma tarefa o Rogério proclamou 'julgas quisto é o quê? Isto é uma monarquia!' e me investiram rainha nas artes de gerir uma sala de aula ou de ensinar alemão. Posteriormente havia de ser investida imperadora, dizem eles que é maior que rainha, e surgindo do nada até sugeriram que aquilo afinal era uma ditadura. Por esta hora desististe de mim, talvez por piedade, ou pela minha rejeição inequívoca, ninguém merece tantos desafios a um fim de tarde, meu sono castigador. É uma virtude saber quando estamos a mais. Tu estavas.

16.50

Cheguei às 8.30. O Jaime disse que o pensamento lhe surgia primeiro em imagens e que só depois se cobria de uma língua e de palavras, foi isto depois de a Violeta perguntar em que língua é que eu pensava. E depois falaram de religião, então és agnóstico, disseram ao Jaime, e a Catarina depois também relatou que a avó tinha chorado quando ela disse que não acreditava em Deus. Partilharam ainda palavras sobre David Hume, e o 'Evangelho segundo Jesus Cristo', e o Jaime também disse lá pelo meio que 'o xadrez na sua simplicidade e complexidade é uma boa metáfora da vida'. Por esta altura eu acabara de escrever o sumário e adentrávamos o mistério insondável de uma língua que remete para o fim das frases a acção de humanos e de tudo, como se fazer fosse a última coisa que fizéssemos.
A Clara mostrou-me a camisa tigresa e disse 'stora, estamos iguais. Eu adoro padrão tigresa' e estávamos, com uns quase 40 anos de diferença, mas o tempo é o que fazemos dele, e neste tempo entraram professora e aluna, tigresas que nem elas.
Um metro e meio de inteligência e atitude proclamou que os heterónimos faziam cosplay uns dos outros. Também disseram que iriam mascarados de Fernando Pessoa e heterónimos, para o Carnaval, uma disse 'eu vou de Bernardo Soares porque tenho muito desassossego' e perguntaram como é que o Alberto Caeiro não acreditava em Deus, porque só acreditava no que via, eu soltei 'o meu olhar é nítido como um girassol' e eles afirmaram que Kant não devia gostar nada de Fernando Pessoa nem Nietzsche, ao que perguntei 'mas como é que vocês sabem pronunciar Nietzsche assim?' E depois falou-se de Descartes, ao que disse 'miúdos, eu não sou vossa professora de Português' e eles disseram 'a stora é nossa professora de tudo!' e começamos a aula.
Depois a Gabriela estava a falar baixinho com o Daniel e eu perguntei o que era e a Gabriela respondeu que era o Fernando Pessoa e que o Daniel se tinha emocionado com o 'Menino de sua mãe' e contou-me que era o poema preferido da avó. O Daniel sorriu com os olhos, um sorriso só suplantado pelo sorriso do coração, e ele também sorri com o coração. O Jaime disse que era tão altruísta que não ia jogar para deixar os outros ganhar e os outros riram-se, bem satisfeitos com o feito do Jaime, e suplicaram mais uma vez que eu os levasse a algum lado no Natal. Por fim respeitaram cega e literalmente a minha ordem 'Não mexam nos testes' quando o que eu queria dizer era 'Não mudem as porras das versões dos testes do lugar'. Eram 16.50 quando saí. Chovia

26 Nov 2019

Sónia Ribeiro, 37 anos


Não havia se não leveza naqueles dias a sul. O calor, o abandono dos corpos, o arremessar das tarefas quotidianas, o fardo das obrigações que via Guadiana abaixo, e o meu pai que imaginava naquele mesmo lugar e a quem sempre homenageei na intimidade de mim. Depois saíamos para jantar e sentavamo-nos na esplanada do restaurante a servir de pasto para as melgas, e paradoxalmente felizes e gratos por tudo. A mulher servia-nos quase sempre. Era alta, de cabelo negro comprido sempre amarrado num rabo-de-cavalo longo que abanava quando ela se deslocava entre as mesas e que obedecendo à gravidade se estendia como um pêndulo no corpo esguio e magro. Tinha olhos negros aos quais não era fácil arrancar um sorriso, tinha uma irmã com filhos e tratava as crianças da casa com intimidade. Não havia suavidade no seu trato. Havia rispidez e eficiência, rapidez e pouco tempo para conversa mole. A mulher trouxe-me muitas vezes a felicidade nas fritadas de peixe, so por isso poderia subir ao meu Olimpo, nas sardinhas alimadas ou albardadas, nos bifes de atum com pores-do-sol rubros e o casario incendiado da luz que se crepuscula na Espanha na outra margem. A mulher forte e incansável era também os dias a sul. Um dia de maio a notícia soou 'mais uma', e o pressentimento de que poderia ter sido a mulher do cabelo longo, dos olhos negros, a mulher-mãe, a mulher jovem e esguia tão resoluta e eficiente, com uma vida pela frente. Não lhe sabia o nome até então. "Sónia Ribeiro, 37 anos, Vila Real de Santo António, no Algarve. Foi a filha mais velha, de 16 anos, que a encontrou ao fim da manhã, pelas 11h30, quando regressava da escola. (...) O corpo, caído no chão, tinha pequenas perfurações no peito e uma maior perto do coração, que se soube mais tarde terem sido feitas com um picador de gelo, quando Sónia já estaria morta por asfixia." O meu sul nunca mais será o mesmo. O dela deixou de ser. 



Em memória da Sónia Ribeiro.

25 Nov 2019

Dia um a três semanas do fim


Primeira aula do dia e da semana, burburinho e agitação. Dou voz de comando, duas ou três advertências inequívocas. A agitação acalma-se não sem antes haver reclamações quanto à minha agora proverbial 'directness'. Depois relembro 'hoje é o dia Internacional da eliminação da violência contra as mulheres' reagem 'a sério?' Sim. Segue-se risada e conversa inconsequente, a ligeireza de que a violência é só e apenas dar na cara de alguém. Levanto a voz irritada e digo-lhes que tenho a certeza absoluta de que todas as mulheres presentes já tinham sido vítimas de violência e dei exemplos inspirados num texto que postei no instagram logo pela  fresca. Abateu-se um silêncio cúmplice, nem um remoque ou um reparo, um manto espesso que nos imobilizou por instantes e quando lhes disse que o silêncio era bastante eloquente,  reclamaram que eu hoje estava agressiva, por outras palavras que não estas. Hoje, como sempre que abordo este assunto, fiquei com a clara certeza de que vejo apenas a ponta do  iceberg quando os tenho à minha frente, e isto assusta-me. Tanto trabalho rio abaixo  e tão pouco tempo. Levantada a invernia, fomos todos felizes outra vez e quase me esqueci da acusação da adorável Genoveva no início da aula 'de VERDE, stora! Nem parece seu!' Não parece mas também não era verde. A negação é uma coisa extraordinária

17 Nov 2019

Crónicas do sono #10


Podes vir agora que a noite se aninhou no luar e lá fora não há se não quietude, não silêncio. Podes vir agora que estendi o corpo e lhe sacudi os afazeres dos dias, obrigações, preocupações, que me afastam tanto de ti, ausências prolongadas que me põem exausta e consumida de vida. Vem agora, meu amor, que o corpo se aninha na lassidão do calor. Larguei os cachos na almofada, respiro com a doçura dos amantes felizes. Se vieres agora, amar-te-ei intensa e feliz até que o sol te chame e te lance noutros braços do outro lado do mundo. Vem, meu insondável sono, meu amante castigador, preciso tanto de ti.

14 Nov 2019

Urbanidade(s)


Dizia-se na aldeia que a dona da padaria tinha um feitio pouco apaziguador, que não guardava para si o que lhe não agradava e que a #urbanidade era parca ou inexistente no tratamento dos empregados. E fiquei a saber de tudo isto porque, um dia na mercearia entre a maçã e 'amêxa', alguém terá dito que a dona da padaria tinha moído o juízo de tal forma a uma empregada, já não rapariga nova, que a pobre estava mal dos 'nerbos'. A dona da padaria era uma mulher pequena, morena, magra e com o despacho característico das mulheres na aldeia. Jamais ficararia quieta se pudesse andar e jamais se calaria se pudesse falar. Foi assim também que relatou um dos seus partos. Ao que parece, terá rezado a cartilha ao clínico, o homem assustado actuou a contento e também sei isto, não porque eu e a dona da padaria sejamos íntimas. Sei isto porque a dona da padaria, um dia enquanto aviava as carcaças e as bolas, relatou esse momento de excelsa elegância que algumas mulheres gostam de relatar: o parto, essa odisseia de esgares, gritos, fluidos, bolsas de sei lá quê que se derramam por uma mulher desprevenida abaixo, médicos, médicas, enfermeiros e enfermeiras a espreitar mistérios insondáveis da natureza feminina, contracções, dilatações e expulsões, valha-me a santa, para que é precisa a inquisição, se se pode parir? E assim foi que, de olhar vivo, explicou, fluente e experiente na desova, como tinha sido.
Na padaria, o pão não era sempre o mesmo. O pão era sempre o mesmo, mas a denominação ia variando, portanto não bastava apenas falar-se a língua dos homens, havia que dominar o código, as nuances, as particularidades, as subtilezas. O que num outro lugar é denominado de papo-seco, na padaria não se resumia a esta sensaborona classificação. Uma ocasião, e após ter sido convenientemente informada de mais uma alteração da nomenclatura, entrei já tarde na padaria, numa hora do dia em que o pão habitualmente já teria sido todo vendido e perguntei à dona da padaria se ainda havia pão. Impunha-se a utilização da nomenclatura recentemente adoptada e, mesmo sentindo que talvez estivesse a perguntar o óbvio, algo visivelmente exposto à minha frente, arrisquei 'Tem maminhas?' A mulher não se ficou e atirou-me 'Não quer mesmo que lhe responda, pois não?' Trocámos um sorriso cúmplice e perguntei 'Então, mas como é que se chama esse pão?' A mulher retorquiu 'Bicos! Ah muito bem! Então e há bicos?' A mulher disse 'Não sei se o padeiro vai cozer mais pão hoje'. Pedi-lhe 'Então, veja lá, se faz favor, se o padeiro vai fazer mais bicos hoje...' No meu tempo, padeiro fazia pão. Bicos eram deixados, se não para outras ocasiões, definitivamente para outras áreas profissionais.