23 Sept 2019

Corpo Silêncio Vida


Às vezes não é preciso muito. Penso nisto enquanto estendo o corpo como uma língua, um caminho que se desenrola de pernas e ancas, sinuoso, nada é recto como na vida, o cabelo de medusa abraçado em cachos selvagens às almofadas e te acomodas como te abandonas num outro corpo, ambos quentes e felizes no silêncio eloquente, primeiro. Enrolo-me no véu de silêncio, inspiro e expiro-me, e penso que podia ser sempre assim. Corpo. Silêncio. Vida.

24 Aug 2019

Crónicas do sono #8


Chega aqui. Mais perto. Deita-te a meu lado e sobe-me como a maré, acaricia-me como a brisa do estio que me entra agora pela janela enquanto me despojo do dia, da noite, de mim, um corpo que anoitece no crepúsculo de si. A noite que se pôs lá fora embalar-nos-á, seremos um até cantar a cotovia, e os raios de sol choverem fios dourados pela janela. Vem agora e serei tua, meu sono desejado, meu amante inquieto.


20 Aug 2019


Saio do carro e vou ao encontro do mar. Está vento, uma brisa fria, o mar revolto e maré despudoradamente vazia. Começo a caminhar com o mar pela esquerda e começo a escrever. Palavras e frases que se juntam e fazem texto. Escrevo sempre. Escrevo muito quando tenho o corpo entretido. Há gente com quem me vou cruzando, o perfume do mar e a brisa que me açoita o corpo e o cabelo. O aroma dos pinheiros imiscui-se neste encontro com o mar e comigo.  Intrometido. Escrevo algo sobre a bênção de viver num sítio destes, a uma distância de 10 minutos, com mar e céu, e azul até onde a vista alcançar, e largo cansaços e negritudes que voam com a ventania. Depois penso em algo sobre a perfeição, que aquele momento seria perfeito, se não houvesse carros, e que a perfeição é enfadonha e irritante, a sua busca inimiga de Eros, e continuo. Faz-se zénite entretanto, uma rabanada de vento forte leva-me as palavras e os textos, ainda corri atrás deles mas a arriba era alta, o vento forte e senti que eles precisavam de liberdade pela força com que me fugiram e o coice de um vocativo. Vi 'ses' e 'quandos' a voar, as vírgulas rodopiavam com o vento e as exclamações despenharam-se na areia, o ponto pesa de mais para voos. Havia expressões como 'quando o mar se põe nu' e 'a inação estrangula-me as palavras', 'o vestido abraçou-me com a volúpia dos amores impossíveis' mas fugiu tudo. Menos isto.

6 Aug 2019

Crónicas do sono #7


És tu outra vez, sorrateiro dos infernos. Mordiscaste-me os tornozelos enquanto me derrubava nuns afazeres, quase garantiria que me lambeste a panturrilha que trago nua neste estio arredio. Eu sei que eras tu. Não negues. Agora que espero um outro afazer e me abandono no sofá, fizeste-te convidado e impuseste-te. As mãos firmes na cintura que deixaste escorregar pela ânfora das minhas ancas quando me levantei resoluta. Sabes bem, esses humores de aparecer quando queres cansam-me, irritam-me e às vezes apetece-me deitar-te fora quando vou ao lixo, não mereces muito mais, ou levar-te comigo quando caminho junto ao mar e libertar-te lá do alto, em dias menos maus, que ficasses com as gaivotas. Chato impertinente. Se viesses à noitinha, na hora dos silêncios, podíamos ser tão felizes, amaciar-me-ia em ti, largaria sonhos e pesadelos e em uníssono inspiraríamos a noite e o luar, estrelas e constelações, que Vénus nos abençoasse e Júpiter nos protegesse. Não insistas agora. Vai -te embora, sono matreiro. Vai -te, fico com o silêncio, não contigo.

2 Aug 2019

Cem cansaços


O cansaço extremo é das piores coisas que me pode acontecer. Senta-se ali ao lado da tristeza profunda e alimenta-a como se fosse Hänsel e Gretel até ficar rotunda e luzidia. Se eu deixar acabará por me atirar para o fosso claustrofóbico que trato com paciência, há-de passar, mas com tempo contado e sem complacência a partir de certa altura. Neste tempo que se adivinha de pousio dos males de exaustão, calço os ténis, uns calções, sacudo cabelos e soturnidades, e faço-me ao caminho, com o mar do meu lado esquerdo. Inspiro a maresia, cheiro o tempo e deixo que o sol e o vento me sacudam, corpo, cabelo, alma. Ainda vi alguns cansaços, os mais débeis, a voar lá para longe onde a vista não alcança. Conheço-os bem e sei como rodopiam e se contorcem antes de desaparecer.  Há carros e gente pelo caminho, uma mulher com dois filhos adultos detém-se nas plantas para lá da cerca de madeira e murmuram algo inaudível. Desço depois até à praia pela escadaria de madeira, e imagino-me a libertar-me da roupa sobre a areia, a saltitar nas pontas dos pés com a subtileza das mulheres que não tenho, nádegas e cabelo ao ritmo desse caminhar leve, até ao mar onde mergulharei sem hesitar. Arrumo a ilusão, mulher, aquilo é o mar da Ericeira, congelar-te-á as partes mais recônditas do corpo, falta-te a graciosidade das mulheres nuvem, e subo as escadas que me parecem infindáveis no zénite que agora se pôs. Retorno com o mar pela direita desta vez, o zénite discreto deste agosto tímido e a maresia por companhias. Quando chegar a casa, pendurarei os cansaços à porta, tenho a certeza, amarfanhados em sacos, lá no cemitério das coisas moribundas onde relego o que não tem remédio, descartá-los-ei um a um, todos. Só assim conseguirei ver o sol, o mar, a maresia, a imaginar-me destemida rumo ao mar. Preciso muito de os conseguir ver. Preciso muito de me conseguir ver. Sem cansaços.

30 Jul 2019

Oeste


Update da vida a Oeste: hoje está sol. Já não acordei com a morrinha outonal, o hibisco não tem gotículas de orvalho, quem sabe se não terei hoje de, na hora da quietude, regar o manjericão e dar um jeito à hortelã. Hoje posso andar de calções sem sentir que a qualquer momento terei de me socorrer das meias da Serra da Estrela que não tenho para compensar o gelo que perspassa as coxas robustas cor de lula deste prolongado outono/inverno. Hoje posso soltar o corpo decadente e abandoná-lo na ideia de estio, deixá-lo libertar-se ali na espreguiçadeira sobre a relva para sentir que o calor de que tanto preciso me ame. Hoje, se calhar, ainda bebo um gin tónico na hora dos crepúsculos do mundo e sento-me de pés nus na relva bem assentes, os pés na terra, a ver o dia a cair, não está frio nem chove, quem sabe passará um barco lá longe na linha periclitante que separa os céus dos mares, a luz das trevas. Se calhar terei ainda de correr veloz atrás do copo, do corpo, do estio, das várias vontades do mundo, e isto porque está um vendaval que me enxugou e açoitou quatro máquinas de roupa: lençóis, cobertores, mantas e mantinhas e outras miudezas de que não se deve falar em público. Lavasse eu esta casa com uma medida bem cheia de detergente e algum amaciador para equilibrar as asperezas da alma e ainda teria de a ir buscar ao oceano que todos os dias perscruto da janela da cozinha. Com um bocadinho de sorte aterraria num outro lugar, limpa e perfumada e começar-se-ia de novo. A Oeste nada de novo. Só vento. E palavras.

18 Jul 2019

Amanhã


Muitos rostos, muitos sonhos, muitos cansaços, muito amor e desilusão. Sentam-se todos à nossa frente nesta vida de ser professor. Umas vezes recolhemo-nos no conformismo de se ser adolescente, há-de passar, foi um momento mau, mas não pode ser, fale com ele ou ela, sim? e às vezes penso que também já fomos todos um bocadinho assim, mais coisa menos coisa, adolescentes, tolos, intempestivos. Não o seremos ainda? Assinamos papéis para atestar sabe-se lá a quem que estivemos em x dia a x hora a tratar de assuntos do seu educando e uma grande parte das vezes há cumplicidades, silêncios e sorrisos, que não cabem naquele rectângulo estúpido como todos os rectângulos estúpidos que reduzem tudo a estatísticas que se dissiparão algures num relatório igualmente estúpido capaz de provocar frémitos de alegria em barras coloridas na vertical que se julga indicar coisas, estúpidas também elas. Valem zero.
Sentou-se algumas vezes à minha frente, esta mulher de rosto doce e discretamente alegre e modos também  doces e sempre educados. Nunca precisou de me dizer que o seu regaço era grande e generoso. Era-o. Falávamos do que falam duas mulheres, uma professora e outra mãe. Via-a algumas vezes ao ir para a escola quando ela continuava  mãe e eu professora mas já não do filho que fez com que os nossos caminhos se tivessem cruzado. Cumprimentavamo-nos na fugacidade dos dias que nos devoram e que a haviam de devorar numa madrugada de crueldade sem explicação. Tinha 50 anos. A mulher, mãe dedicada, continua comigo. Amanhã recebê-la-ei na sala de directores de turma com hora marcada e depois de amanhã vou vê-la a passar na rua do lado direito quando eu for a caminho da escola. Sorriremos uma para a outra, eu dentro do carro, ela fora, e entender-nos-emos sem mais, como fizemos antes. Amanhã.