Em casa da minha avó havia uma.
Era tão alta que chegava ao segundo andar e dava-nos as boas-vindas quando lá
íamos pelo Natal, uma ou outra vez cobriu-se de neve, ocasionalmente pela
Páscoa quando o compasso pascal obrigava a que as mamas da estatueta cinzenta
fossem cobertas para não insultar o vigário, e no verão, quando as mamas da
estatueta eram livres e tão jovens e firmes como na Páscoa, e não havia neve.
Assim era a araucária. Hoje quando o sol poente me chamou da janela da cozinha
vi uma araucária. O contraste escuro em escadinha contra o céu em listas
horizontais coloridas. Nunca antes havia visto a araucária e não sei porque
havia de a ver exactamente hoje neste jejum abstinente de fotografias a que
este bicho de onde vos escrevo me impôs. Araucária ao poente na hora em que se
escondem todos os males e se abrigam inquietudes, que bela fotografia, não
ficou?
6 Jan 2019
4 Jan 2019
(Des)Foco
Não me surpreendi porque havia um
vidro de permeio e a ideia de ver o mundo lá em baixo meio desfocado na
vertigem de janeiro, o meu odiado janeiro, pareceu-me ilustrativa do meu estado
de alma lá pelas 10.30 de ontem. Pelas 17.10 de ontem também o sol brilhava no
ocaso através da janela do ginásio, nesse momento a vertigem de janeiro
tinha-se dissipado ou afastado, havia um pôr-do-sol exuberante que me acenava
no horizonte e quando lhe apontei o telemóvel tinha uma imagem sem contorno,
uma imensa esfera rubra que não se deixava ver com nitidez. Numa altura de
focos e focados e focadas, o meu telemóvel perdeu a capacidade de focar e de se
focar, ao contrário, primeiro focar-se e depois focar. Esta é pois a melhor
altura para estar ao meu lado: não há tentações de fotografar quase tudo o que
vejo, dependendo do sítio onde vejo, e quando quero ver, quero ver tudo. Um par
de olhos e um par de lentes de contacto HD presbiopia não me chegam. O japonês
que vive dentro de mim e com quem tenho contendas frequentes recolheu-se,
parece-me estar sentado ao lado da minha solidão, tenho um desconforto do lado
direito quem desce que só pode ser isso. A minha própria mãe, no seu jeito
muito próprio, afirmou ao saber do sucedido 'ah estás desgraçada agora' e só
não se riu de mim porque andava às bolas coloridas ou a colher butternut
squash, que, como se sabe, são mais importantes do que um telemóvel
desgovernado e demente. E é isto. A partir de agora por tempo indeterminado só
haverá palavras, o meu Instagram estará a viver de throwbacks, que são como a
feira da Malveira, só à quinta-feira e eu apenas de olhares. Queiram os deuses
que eu não perca a capacidade de focar.
30 Dec 2018
O rapaz com a cadela branca
malhada de preto levantou-se. Está agora do outro lado da rua à conversa com um
rapaz igual a ele, do mesmo tamanho, só em azul escuro e sem cadela. O casal
descontraído com os gémeos de cerca de um metro cada um também já se foram.
Atrás de mim sentam-se quatro mulheres que pressinto, não vejo, e a conversa
oscila entre 'mas estás a gozar comigo?' e 'não tens frio?' e 'olha, vamos para
aquela ali'. Há uma refilice constante nestas quatro mulheres de idades
diferentes, duas delas ainda não sabem que são mulheres, saberão a seu tempo. A
conversa é interrompida porque alguém chegou, uma voz de homem e outra de
mulher. Trocam cumprimentos, imagino que votos de bom ano. As quatro mulheres
desaparecem entretanto. Não estão do outro lado da rua numa outra cor e
tamanho, e sei que não estão porque desapareceu o perfume intenso e irritante,
uma espécie de inquietação miudinha que se me penetrou na pituitária e sabem os
deuses do que este meu olfacto de beagle é capaz. Restabelecida a ordem,
aconchego-me no casaco de pêlo cor de labrador e no cachecol do Nepal, nem sei
porque vos falo destes pormenores, e penso que todos podem errar, até o Pai
Natal que lhes trouxe aquele perfume irritante. É por isso que não acredito
nele.
28 Dec 2018
Enquanto a tarde se adentra de
mansinho, vejo a minha imagem reflectida na porta e lembro-me da frase da minha
amiga Cristina 'envelhecer é uma merda'. O reflexo na porta retorna-me uma
mulher baixa, de cabelos alvoroçados, de corpo tranquilo, nem uma réstia de
inquietação sob a blusa preta semi-justa, o rosto a declinar, rugas em torno
dos olhos. Envelhecer só é uma merda porque nos lembram permanentemente de quem
fomos e o 'quem fomos' resume-se à vaidade de um corpo jovem e porque jovem
mais belo e perfeito, intocado pelo tempo, uma peça de roupa a estrear sem
rugas nem vincos. O passado agrilhoa-nos a algo que talvez nunca tenhamos sido.
Se deixarmos, sufocar-nos-á como as imagens de infâncias e natais felizes, as
que nunca ninguém teve mas que a memória
se terá encarregado de colorir em tons pastel de sorrisos cândidos e camisolas
de caxemira. Envelhecer não é uma merda. É uma réstia de sol decadente que me
incendeia o cabelo nesta tarde abençoada de dezembro. Podemos ser apenas?
26 Dec 2018
O ano de todas as solidões
Estávamos no ano de todas as
solidões e chamo-lhe ano de todas as solidões porque nesse ano começou um ciclo
de solidões várias que só acabaria em novembro. Nesse ano eu estava sentada na
sala de cinema, não sei porquê mas na minha imaginação ou no baú das memórias
reverbera o número dois, e se reverbera passará a ser, as memórias são sempre o
que queremos que elas sejam, não necessariamente o que foram, uma construção de
mulheres e momentos vividos, como este em que me sentava na sala de cinema com
um homem, desconhecido, a meu lado. O desconhecido cujas feições, cheiro ou
toque desconheço por inteiro, na minha reconstrução ele é apenas o
desconhecido, talvez o desconhecido que mais permanece em mim, sentava-se a meu
lado, era de tarde, talvez uma sessão das duas, e eu com a minha solidão
sentámo-nos no escuro. Tudo tão soturno: uma mulher de 30 e poucos anos,
sentada com a sua solidão numa sala de cinema escura e um desconhecido ao lado.
A mulher de 30 e poucos anos não sabia que tinha levado consigo a solidão.
Sentiu-a quando no ecrã à sua frente apareceu Omara Portuondo e a mulher que há
uns meses a tinha visto actuar em Havana não tinha com quem partilhá-lo. Havia
o desconhecido, era uma possibilidade. Por milésimos de segundo partilharia a
surpresa e a emoção, a solidão sentar-se-ia no recanto recôndito onde vive
quase sempre, e a mulher sorriria para o desconhecido, apatetada, porque tinha
a solidão dentro dela a espernear. Sei. As solidões esperneiam às vezes, são
possessivas e exigem exclusividade. Não aconteceu. A mulher embalou-se ao som
de Dos Gardenias, agarrou-se à solidão de sempre, por esta altura
enrolava-se-lhe no pescoço com um gato carente, e guardou para sempre o
momento.
E isto só voltou porque ao que
parece a sala de cinema vai fechar. Pode levar a solidão com ela. As memórias
jamais.
5 Dec 2018
A Genoveva estava sentada na
última carteira e depois de ter perscrutado o teste que lhe chegara às mãos,
atirou-me com um ar sério 'stora, a stora fez um smile no meu texto'. Fiz? Sim.
'É porque escreveu algo de que gostei' A
Genoveva não se deu por vencida e continuou com um ar intrigado, que raio de
bicho lhe havia de calhar este ano que faz smiles no que escreve. Desci ao seu
lugar, também eu inquieta, isto de ser professor produz cansaços vários que se
reproduzem exuberantes nesta época do ano, sabe-se lá o que me teria passado
pela cabeça, se a caneta não me teria resvalado nesta fúria classificadora . A
Genoveva estendeu-me o teste com prontidão, li a frase e disse ' e então, isso
que disse não é bonito?' Ah, respondeu, é!
Hoje o Eleutério estava sentado
no seu mundo, no seu mundo não estaria sentado, voaria por certo, porque o
Eleutério voa muito entre retas e paralelas, perpendiculares e sobrepostas, e
tem um mundo só seu que reparte com folhas imensas de papel branco. 'Gostei
muito do seu trabalho' disse-lhe. O Eleutério abriu os olhos em surpresa,
inclinou-se levemente para trás, levou a mão ao peito e questionou assustado
'do meu, stora?' 'Sim, do seu, ora!' O Eleutério balbuciou algo meio sem jeito
e continuou na sua vida de linhas e papel branco, algo inquieto com esta mania
de os professores elogiarem o trabalho dos alunos.
Não sei muito bem em que ponto os
alunos se desabituaram de ouvir um elogio, as pessoas, de resto, ou se alguma
vez se teriam habituado, mas a vida sem um elogio é um terreno seco de onde só
brotam vazios. Não me habituarei.
4 Dec 2018
A Maria Amélia vivia nas berças
na altura em que se podia chamar berças às berças, os lugares recônditos do
interior do país, lá onde o perfume da maresia não chega. A Maria Amélia era
rapariga sensível, escrevia bem e muito, e era professora primária, nessa
altura das berças também não havia professoras do primeiro ciclo do ensino
básico. A Maria Amélia pronunciava as palavras com a prontidão das gentes da
Beira Alta, sem palavras meias, de pronúncia cerrada, dizia tchotcha para
chocha, os s carregados com o arrastar do x, um b ou outro trocado por v e
vice-versa. E uma entoação tão própria que ainda hoje me ecoa, mas não sei se o
que me ecoa é a Maria Amélia, ou se é a minha própria infância que me salta ao
caminho quando, incauta, se me evocam passados.
A Maria Amélia era mulher de
vigor, pouco feminina, e casada com um homem velho, só as fortes se casam com
homens velhos. Tinha passada larga, larga como o seu sorriso e gargalhar
espontâneo. Deste amor salpicado de granito e madeiros de natal, perfumado com
míscaros e dióspiros, nasceram-lhe vários filhos. E filhas. O homem era velho,
ela era máscula, mas quem disse que o amor é feito de homens jovens e mulheres
femininas em impetuosas cópulas? Não é, se não a Maria Amélia não havia parido
meia dúzia de crias. Da ninhada fazia parte um rapaz. O mais novo. O rapaz
vinha à cidade de vez em quando, trazido pela mãe. E não tinha nome. Era o Janota.
Maria Amélia contava depois as peripécias do seu Janota, relatava que tinha uma vocabulário impróprio para flocos
de neve e que soltava qual língua de serpente a cuspir fogo, amiúde, quando
descia as serranias. Se os caprichos não lhe eram satisfeitos incendiava tudo
em seu redor com o mais impiedoso vernáculo. Maria Amélia contava os episódios
com manifesto incómodo, vergonha, nessa altura das berças também não havia
incómodos nem desconfortos, mas era estratégia infalível e nem assim deixou de
ser o Janota. Acontecia sempre que vinha à cidade, assim como acontecia ir
espreitar para dentro dos secadores dos tocados femininos quando acompanhava a
mãe ao salão Maribel para esta fazer uma mise.
Da Maria Amélia nada mais se
soube. O seu janota terá sido promovido a senhor Janota ou Sr. Dr. Janota, não
se sabe se ainda espreita as mises das senhoras ou se continua a brindar o
mundo com a panóplia de impropérios. Onde paira é um mistério tão grande como o
seu próprio nome.
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