O cansaço extremo é das piores
coisas que me pode acontecer. Senta-se ali ao lado da tristeza profunda e
alimenta-a como se fosse Hänsel e Gretel até ficar rotunda e luzidia. Se eu
deixar acabará por me atirar para o fosso claustrofóbico que trato com paciência,
há-de passar, mas com tempo contado e sem complacência a partir de certa
altura. Neste tempo que se adivinha de pousio dos males de exaustão, calço os
ténis, uns calções, sacudo cabelos e soturnidades, e faço-me ao caminho, com o
mar do meu lado esquerdo. Inspiro a maresia, cheiro o tempo e deixo que o sol e
o vento me sacudam, corpo, cabelo, alma. Ainda vi alguns cansaços, os mais
débeis, a voar lá para longe onde a vista não alcança. Conheço-os bem e sei
como rodopiam e se contorcem antes de desaparecer. Há carros e gente pelo caminho, uma mulher
com dois filhos adultos detém-se nas plantas para lá da cerca de madeira e
murmuram algo inaudível. Desço depois até à praia pela escadaria de madeira, e
imagino-me a libertar-me da roupa sobre a areia, a saltitar nas pontas dos pés
com a subtileza das mulheres que não tenho, nádegas e cabelo ao ritmo desse
caminhar leve, até ao mar onde mergulharei sem hesitar. Arrumo a ilusão,
mulher, aquilo é o mar da Ericeira, congelar-te-á as partes mais recônditas do corpo,
falta-te a graciosidade das mulheres nuvem, e subo as escadas que me parecem
infindáveis no zénite que agora se pôs. Retorno com o mar pela direita desta
vez, o zénite discreto deste agosto tímido e a maresia por companhias. Quando
chegar a casa, pendurarei os cansaços à porta, tenho a certeza, amarfanhados em
sacos, lá no cemitério das coisas moribundas onde relego o que não tem remédio,
descartá-los-ei um a um, todos. Só assim conseguirei ver o sol, o mar, a
maresia, a imaginar-me destemida rumo ao mar. Preciso muito de os conseguir
ver. Preciso muito de me conseguir ver. Sem cansaços.
2 Aug 2019
30 Jul 2019
Oeste
Update da vida a Oeste: hoje está
sol. Já não acordei com a morrinha outonal, o hibisco não tem gotículas de
orvalho, quem sabe se não terei hoje de, na hora da quietude, regar o
manjericão e dar um jeito à hortelã. Hoje posso andar de calções sem sentir que
a qualquer momento terei de me socorrer das meias da Serra da Estrela que não
tenho para compensar o gelo que perspassa as coxas robustas cor de lula deste
prolongado outono/inverno. Hoje posso soltar o corpo decadente e abandoná-lo na
ideia de estio, deixá-lo libertar-se ali na espreguiçadeira sobre a relva para
sentir que o calor de que tanto preciso me ame. Hoje, se calhar, ainda bebo um
gin tónico na hora dos crepúsculos do mundo e sento-me de pés nus na relva bem
assentes, os pés na terra, a ver o dia a cair, não está frio nem chove, quem
sabe passará um barco lá longe na linha periclitante que separa os céus dos
mares, a luz das trevas. Se calhar terei ainda de correr veloz atrás do copo,
do corpo, do estio, das várias vontades do mundo, e isto porque está um
vendaval que me enxugou e açoitou quatro máquinas de roupa: lençóis,
cobertores, mantas e mantinhas e outras miudezas de que não se deve falar em
público. Lavasse eu esta casa com uma medida bem cheia de detergente e algum
amaciador para equilibrar as asperezas da alma e ainda teria de a ir buscar ao
oceano que todos os dias perscruto da janela da cozinha. Com um bocadinho de
sorte aterraria num outro lugar, limpa e perfumada e começar-se-ia de novo. A
Oeste nada de novo. Só vento. E palavras.
18 Jul 2019
Amanhã
Muitos rostos, muitos sonhos,
muitos cansaços, muito amor e desilusão. Sentam-se todos à nossa frente nesta
vida de ser professor. Umas vezes recolhemo-nos no conformismo de se ser
adolescente, há-de passar, foi um momento mau, mas não pode ser, fale com ele
ou ela, sim? e às vezes penso que também já fomos todos um bocadinho assim,
mais coisa menos coisa, adolescentes, tolos, intempestivos. Não o seremos
ainda? Assinamos papéis para atestar sabe-se lá a quem que estivemos em x dia a
x hora a tratar de assuntos do seu educando e uma grande parte das vezes há
cumplicidades, silêncios e sorrisos, que não cabem naquele rectângulo estúpido
como todos os rectângulos estúpidos que reduzem tudo a estatísticas que se
dissiparão algures num relatório igualmente estúpido capaz de provocar frémitos
de alegria em barras coloridas na vertical que se julga indicar coisas,
estúpidas também elas. Valem zero.
Sentou-se algumas vezes à minha
frente, esta mulher de rosto doce e discretamente alegre e modos também doces e sempre educados. Nunca precisou de me
dizer que o seu regaço era grande e generoso. Era-o. Falávamos do que falam
duas mulheres, uma professora e outra mãe. Via-a algumas vezes ao ir para a
escola quando ela continuava mãe e eu
professora mas já não do filho que fez com que os nossos caminhos se tivessem
cruzado. Cumprimentavamo-nos na fugacidade dos dias que nos devoram e que a
haviam de devorar numa madrugada de crueldade sem explicação. Tinha 50 anos. A
mulher, mãe dedicada, continua comigo. Amanhã recebê-la-ei na sala de
directores de turma com hora marcada e depois de amanhã vou vê-la a passar na
rua do lado direito quando eu for a caminho da escola. Sorriremos uma para a
outra, eu dentro do carro, ela fora, e entender-nos-emos sem mais, como fizemos
antes. Amanhã.
12 Jul 2019
Crónicas do sono #6
E aqui estamos outra vez. Eu
deitada na minha posição preferida, barriga para o ar, o corpo com a
displicência do estio, tranquilo e suave, quase indefeso, e chegas. Senti-te
quando entrei em casa e me chamaste, a sedução a que não resisto, esse jeito de
me fazeres tua a que obedeço indefesa. Deita-te, sussurraste, obedeci. Chega-te
agora mais perto, meu eterno amante fugidio, meu sono castigador. Envolve-me
nesse véu protector de onde não quero sair e seremos um. Vem. Hoje. Agora.
gavetas:
sono
8 Jul 2019
Crónicas do sono #5
És tu outra vez, és tu que me
percorres as costas como um fio de mel. Sinto-te, meu amor, a quereres tomar-me
como tua, o teu halo tépido que envolve o meu corpo antes de me abandonar em ti
e fazeres de mim o que queres, submissa e conformada nesta necessidade de ti.
Tu sabes, vais e voltas quando queres, e quando te julguei meu outra vez,
resolveste fugir-me para os braços de outros, o lugar que arrefece e os olhos
que despertam na escuridão de mim. Mas agora que me queres, serei forte e
irresoluta, procurarei bosques e mares que de ti me mantenham longe, procurarei
mundos nos livros para que não te sucumba. Não te quero agora, sono caprichoso,
minha tumultuosa metade. Volta logo, e serei tua outra vez. Agora não.
gavetas:
sono
Ermos
Não vos cansa a negatividade, a
visão do mundo e dos outros como um lugar de trevas e ressentimento, um sítio
ermo onde todos os outros estão errados e nós, os eleitos e iluminados, temos
razão? O Mariano não cumpriu. O Grancelino até nem era mau de todo mas também
não cumpriu porque chegou atrasado, esbardalhou-se nas gorduras que lhe
albergam a infelicidade e isso quase lhe foi fatal, isso e ter visto a melhor
amiga morrer aos 11 anos, mas isso e outros issos interessam pouco ao lado de coisas
inomináveis que só respondem por siglas, nem sequer acrónimos que eu gosto de
acrónimos. A Dicotomina, coitada, esforçou-se bastante mas é limitada e é
melhor escrever l i m i t a d a, ao que reclamei do alto dos meus cabelos
eriçados, 'não, não podem escrever isso, digam de outra maneira', os nomes das
coisas podem ser muitos, a realidade soará menos dura se lhe arredondarmos os
epítetos e às vezes precisamos, a Dicotomina merece, e foi isto a sequência
lógica de uma série de considerações sobre a vida de merda da Dicotomina, aceitemos
agora sem limitações que há vidas de merda, e também sem arredondar palavras,
talvez as arestas do M e do R se espetem nas almas dos presentes. Não
espetaram. Já o Timóteo é um bardina, queria passar de ano, mais coisa menos
coisa, assim, sem mais nem menos, ou quase. Afirmei, pedindo para entrar na
conversa que talvez fosse melhor dar-lhe a oportunidade, decidiria por si e
mostraria o seu valor, mas não, ainda senti um olhar certeiro que só foi
desviado porque a rodela prateada do meu colar se interpôs no caminho e me
salvou a indignação certeira ao peito, lá onde me crescem e palpitam coisas
sentidas, e agora estaria erma de palavras também eu.
E depois, lá para o quase fim,
disse 'olhem, ontem fiz uma tarte tatin de alperces d e l i c i o s a!' Ao meu
lado senti a energia doce da aprovação e comecei a evadir-me daquele sítio ermo
para onde há tartes tatin de alperces e um raio de sol que ilumina os lugares
ermos para que deixem de o ser.
Não vos cansa tudo isto?
gavetas:
para lá dos portões
17 Jun 2019
Crónicas do sono #4
Hoje foste tu que me chamaste. De mansinho como os gatos
enroscaste-te no meu colo e foste subindo sorrateiro até te enrolares no
pescoço. Ouço o teu sopro suave, a respiração no meu peito, o calor húmido do
teu corpo tão perto, véu de seda que me envolve e me deixa vulnerável e
abandonada. Fecha a porta, meu sono desejado, meu amante fugidio. Fecha o mundo
lá fora. Serei tua.
gavetas:
sono
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